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Política

Braskem sabia do risco quatro anos antes: MPF usa e-mail interno de 2014 para provar ciência da empresa sobre subsidência em Maceió

Mensagem recuperada com quebra de sigilo telemático mostra que gestores da mineradora tinham estudos técnicos sobre afundamento do solo muito antes das fissuras nos bairros alagoanos.

Redação ChicoSabeTudo
26 de junho, 2026 · 06:35 3 min de leitura
Vista aérea de bairros afetados pelo afundamento do solo em Maceió causado pela mineração da Braskem
Vista aérea de bairros afetados pelo afundamento do solo em Maceió causado pela mineração da Braskem

Uma mensagem eletrônica interna da Braskem, datada de fevereiro de 2014 e recuperada com autorização judicial, tornou-se uma das peças centrais da denúncia criminal apresentada pelo Ministério Público Federal (MPF) contra a empresa pelo desastre de afundamento do solo em Maceió. O documento foi juntado aos autos em novembro de 2025 e, segundo o cadaminuto.com.br, contradiz diretamente a tese corporativa de que a tragédia resultou de um evento geológico imprevisível.

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O e-mail teria sido enviado pelo então coordenador de mineração Adolfo Pereira Sponquiado ao gerente de produção Paulo Márcio Tibana e ao técnico Jorge Augusto Bastos, com estudos sobre subsidência nos poços de sal das minas 2, 6, 16 e 17 — área conhecida como Terreno Pinheiros. Segundo as informações divulgadas pela publicação, o documento reunia trechos de relatórios do consultor Álvaro Maia que apresentavam projeções de afundamento entre 10 centímetros e mais de meio metro ao longo dos anos.

Entre os estudos mencionados na mensagem, um de 1996 indicava que o pilar separador das minas 2 e 6 estaria "subdimensionado" e próximo do colapso. Outro estudo, de 2007, estimava subsidência máxima de até 58 centímetros após o encerramento da lavra daquele conjunto de cavernas. Para o MPF, a circulação desse material entre gestores da empresa derruba o argumento de que o desastre foi um evento sem precedentes técnicos.

A denúncia ainda revela que, em março de 2018 — poucos dias após o tremor de terra registrado no bairro do Pinheiro —, Paulo Márcio Tibana encaminhou para o próprio e-mail a mensagem original de 2014. Para o Ministério Público, o episódio indica que os estudos internos continuavam sendo consultados pela área técnica mesmo naquele momento crítico.

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Documentos anexados à denúncia do MPF apontam que a antiga Salgema e, posteriormente, a Braskem, tinham conhecimento desde 1980 sobre os riscos de afundamento provocados pela mineração de sal-gema, com estudos técnicos entre 1986 e 1989 já alertando para falhas na exploração mineral e para a possibilidade de colapso das cavernas subterrâneas. Mesmo assim, ao menos 30 documentos encaminhados a órgãos públicos teriam omitido ou distorcido informações relevantes sobre o avanço do afundamento, incluindo mapas alterados, medições manipuladas e relatórios incompletos usados para obter renovações de licenças ambientais e minerárias.

Oito anos após o início do afundamento que expulsou mais de 40 mil moradores de cinco bairros de Maceió, a Justiça Federal em Alagoas decidiu levar adiante a ação penal. O juiz federal substituto Sergio Feitosa, da 1ª Vara Federal, recebeu parcialmente a denúncia do MPF em 12 de junho de 2026, determinando o prosseguimento do processo. Na denúncia, o MPF atribui à empresa e a ex-gestores crimes como poluição ambiental qualificada, elaboração de estudos ambientais supostamente falsos, extração irregular de recursos minerais e dano qualificado ao patrimônio.

O laudo pericial da Polícia Federal (Laudo nº 1547/2024-INC/DITEC/PF), segundo informações divulgadas pelo cadaminuto.com.br, aponta que a extrapolação dos limites seguros de mineração foi prática constante por cerca de 40 anos, estendendo-se ao período de gestão da Braskem, que assumiu o complexo em 2002. A Mina 17, por exemplo, teria continuado operando por anos mesmo após alertas formais de uma empresa contratada recomendando a paralisação imediata — e chegou a 106 metros de diâmetro e 124,5 metros de altura quando foi finalmente desativada.

Em 10 de dezembro de 2023, a Mina 18 da Braskem se rompeu. A causa do afundamento é atribuída ao impacto de quatro décadas de mineração para extração de sal-gema, minério usado na fabricação de itens como soda cáustica e PVC. A subsidência atingiu diretamente mais de 14 mil imóveis e levou à remoção de cerca de 60 mil pessoas.

Procurada, a Braskem afirmou que se manifestará nos autos do processo. A empresa disse que colaborou com as investigações desde o início, prestando informações às autoridades, e declarou que "sempre atuou em conformidade com as leis e regulações do setor". Segundo a companhia, seguirá empenhada no cumprimento dos compromissos assumidos com a sociedade alagoana e com os moradores afetados. As alegações do MPF ainda serão analisadas durante a tramitação do processo penal.

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