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Política

Jacus, Carcarás e Beija-flores: os apelidos que governam o interior da Bahia há décadas

Muito antes de PT ou União Brasil, o eleitor baiano escolhia seu lado por nomes de animais, cores e apelidos que atravessaram gerações e ainda definem quem manda nos municípios.

Redação ChicoSabeTudo
28 de junho, 2026 · 06:40 3 min de leitura
Aves jacu e carcará, símbolos de facções políticas históricas do interior baiano
Aves jacu e carcará, símbolos de facções políticas históricas do interior baiano

Nas eleições municipais de 2024, a Bahia confirmou um traço que atravessa sua história política: a polarização. Em 214 dos 417 municípios do estado — pouco mais da metade —, a disputa pela prefeitura teve apenas dois candidatos. O dado, levantado pela Confederação Nacional de Municípios (CNM), parece moderno, mas aponta para algo muito mais antigo.

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Muito antes de existirem petistas, carlistas ou bolsonaristas no interior baiano, havia Jacus, Carcarás, Beija-flores, Bocas Pretas, Bocas Brancas, Gaviões e Rabos. Esses apelidos, aparentemente folclóricos, carregam décadas de disputa por poder, cargos públicos, obras e controle do eleitorado em centenas de municípios espalhados pelo estado.

A dimensão desse fenômeno aparece em pesquisas acadêmicas sobre o interior baiano. Em Santo Antônio de Jesus, o historiador Marcos Souza Batista, mestre pela Universidade Federal da Bahia (Uneb), descreve a política local como marcada pela rivalidade entre dois grupos identificados por nomes de pássaros — o Beija-flor e o Jacu — formados nos primeiros anos da década de 1960. Segundo o pesquisador, a divisão não ficava restrita aos palanques: atravessava bares, farmácias, feiras livres, relações familiares e até o ambiente doméstico.

Batista chegou a presenciar, na infância, discussões acaloradas entre vizinhos, amigos e parentes cada um defendendo seu "lado". Seu pai era, nas palavras dele, um "Jacu de ninho" — termo popular para quem nunca mudou de facção. Sua mãe se declarava "Beija-flor até morrer". A política, ali, era quase uma questão de identidade familiar.

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Em Guanambi, no sudoeste baiano, a mesma lógica se reproduziu dentro da própria ditadura militar. A historiadora Maryana Gonçalves Souza, em pesquisa sobre a interiorização do golpe de 1964, registra que mesmo dentro da Aliança Renovadora Nacional (Arena) — partido que sustentava o regime — havia divisão interna: os grupos opostos se chamavam Jacus e Carcarás, formando a Arena 1 e a Arena 2. O bipartidarismo imposto pela ditadura não impediu que a rivalidade local encontrasse seu próprio caminho.

A origem desses nomes diz muito sobre a cultura política do interior. O Jacu, ave típica de matas fechadas, era associado ao grupo mais tradicional e arraigado — aquele que comandava a política local há mais tempo. Adversários usavam o apelido de forma pejorativa, insinuando passividade. Com o tempo, os próprios grupos incorporaram o nome como identidade. Já o Carcará — ave de rapina da Caatinga, astuta e combativa — foi apropriado politicamente para representar a oposição disposta ao enfrentamento direto.

O padrão se repete em outros municípios com variações: Mosquito, Mandioca, Azul, Vermelho, Corina, Memé, Macaco, Gavião. Cada nome guarda uma história de rivalidade local, de famílias que se digladiaram por gerações pelo controle da prefeitura e do acesso a recursos públicos.

Essa lógica ainda ecoa nas eleições de hoje. Nas cidades menores, onde a prefeitura é o principal empregador e as oportunidades econômicas são escassas, o voto continua sendo uma questão de pertencimento — e a disputa, muitas vezes, se decide por uma margem mínima. Nas eleições de 2024, ao menos 15 municípios baianos elegeram prefeitos com diferença inferior a 100 votos. Em Santa Terezinha, no Centro Norte do estado, bastaram quatro votos para separar o eleito do segundo colocado.

Os nomes mudaram. Os partidos se multiplicaram. Mas a estrutura de poder que organiza a política em boa parte do interior baiano permanece fiel à sua essência: dois grupos, duas cores, dois lados — e uma divisão que o eleitor carrega às vezes por toda a vida.

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