O psiquiatra baiano Antonio Pedreira de Oliveira, com mais de 45 anos de atuação em saúde mental, emitiu um alerta claro: pessoas com histórico de crimes violentos e traços de personalidade antissocial não podem ser tratadas da mesma forma que cidadãos comuns ao retornar ao convívio social. A declaração foi dada em entrevista ao portal BNews, ao ser questionado sobre o caso de Mateus da Costa Meira.
Mateus é o baiano que, em 3 de novembro de 1999, entrou armado com uma submetralhadora numa sala de cinema do Morumbi Shopping, em São Paulo, durante a exibição do filme "Clube da Luta". O ataque deixou três pessoas mortas e outras nove feridas. Segundo informações confirmadas por múltiplas fontes, o crime foi premeditado: ele comprou a arma ilegalmente, providenciou munição e se hospedou em um hotel para dificultar o rastreamento.
Após condenações iniciais que somaram mais de 120 anos de prisão — posteriormente reduzidas —, Mateus foi transferido para Salvador. Na Penitenciária Lemos Brito, tentou matar um companheiro de cela com golpes de tesoura. O episódio levou a um novo julgamento, no qual a Justiça da Bahia o considerou inimputável, determinando internação por tempo indeterminado no Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico de Salvador. Em setembro de 2024, após 25 anos entre prisão e internação, ele foi solto.
A soltura foi contestada pelo Ministério Público da Bahia, que apontou ausência de perícia comprovando o fim da periculosidade. Mesmo assim, a Justiça autorizou a desinternação condicional, determinando que Mateus morasse com os pais e mantivesse tratamento psiquiátrico. Segundo informações publicadas pelo colunista Ullisses Campbell, do jornal O Globo, ele vive sozinho em uma quitinete em Salvador, a poucos quarteirões do Shopping Barra — onde passou a frequentar cafés, livrarias e salas de cinema.
A presença de Mateus no shopping gerou apreensão entre lojistas e frequentadores, que passaram a fotografá-lo e compartilhar imagens em grupos de WhatsApp. O Shopping Barra tem 315 lojas, oito salas de cinema e recebe cerca de 50 mil visitantes por dia. Ao comentar a reação de medo das pessoas, o psiquiatra Antonio Pedreira afirmou que a preocupação é legítima e não deve ser minimizada, pois shoppings são espaços de lazer e convivência familiar.
Na avaliação do especialista, o histórico atribuído a Mateus — incluindo ausência de arrependimento genuíno e violência mesmo durante o período de reclusão — poderia se enquadrar em um quadro de personalidade psicopática. "Pela descrição apresentada, ele se enquadraria nesse tipo de personalidade psicopática", afirmou Pedreira, acrescentando que esse perfil envolve pessoas capazes de aparentar reabilitação e, posteriormente, retomar comportamentos violentos.
A avaliação converge com a de outros especialistas que acompanharam Mateus ao longo dos anos. A psiquiatra Grace Adriana Lopes Conceição, que o examinou durante quase um ano no Hospital de Custódia da Bahia, considera que o risco está associado a traços de personalidade antissocial — frieza, ausência de empatia e capacidade de planejamento — e não apenas a um eventual transtorno psiquiátrico. A psiquiatra Hilda Morana, que o avaliou em São Paulo, também defende que ele não deveria estar em liberdade.
Para o médico Antonio Pedreira, a ressocialização é um objetivo legítimo do sistema penal, mas precisa ocorrer com critérios. Ele defendeu que pessoas com esse perfil de risco sejam acompanhadas de forma individualizada após deixarem o sistema de custódia. "Ele precisa ser custodiado, acompanhado por alguém, para ser monitorado, como uma pessoa de risco potencial", disse, segundo informações divulgadas pelo BNews. O especialista também destacou que a liberdade individual deve ser ponderada em relação ao impacto sobre a segurança de terceiros.
Até o momento, o Tribunal de Justiça da Bahia e o Ministério Público não se manifestaram publicamente sobre a situação atual de Mateus. Não há registro de que ele tenha cometido novos crimes desde a desinternação.







