Uma das emissoras mais antigas de Sergipe voltou a transmitir — mas o sinal que chega ao ouvinte aracajuano não é sergipano. A Rádio Liberdade FM, que saiu do ar no início de 2025 após dispensar todos os seus colaboradores, retomou as operações em 2026 retransmitindo integralmente a programação da Rádio Bandeirantes de São Paulo, sem qualquer espaço aparente para produção local.
Fundada na década de 1950 por Albino Silva, a emissora construiu uma história relevante na comunicação sergipana. Ao longo dos anos, passou pelas mãos dos ex-prefeitos Heráclito Rollemberg e Almeida Lima, até chegar ao Grupo Torre Empreendimentos, atual proprietário da rádio. Hoje, segundo informações divulgadas pelo blog Cláudio Nunes, a sede da emissora, localizada no Edifício Paulo Figueiredo, no Centro de Aracaju, funciona lacrada e sem qualquer atividade jornalística local visível.
O retorno gerou questionamentos porque contraria o que prevê o Marco Regulatório da Comunicação. Segundo a fonte, a legislação exige que ao menos 30% da grade de uma emissora seja composta por conteúdo produzido localmente — garantindo espaço para informação regional, cultura e geração de empregos para profissionais da comunicação. No caso da Liberdade FM, nenhum desses 30% parece estar sendo cumprido.
O Sindicato dos Jornalistas de Sergipe já havia emitido nota oficial lamentando a decisão da direção da Rádio Liberdade FM de encerrar a programação local, "após décadas de contribuição ao Jornalismo e à comunicação sergipana". O Sindijor também alertou que comunicadores com mandato sindical não poderiam ser desligados por força da imunidade sindical.
Com o retorno em 2026, o cenário não se alterou. Os jornalistas, radialistas, produtores e operadores que davam voz às demandas da população sergipana continuam sem postos de trabalho na emissora. O impacto é direto num mercado de comunicação já bastante restrito no estado.
A situação coloca em xeque a atuação dos órgãos reguladores. A partir de convênio celebrado com o Ministério das Comunicações, em agosto de 2011, a Anatel passou a fiscalizar e instruir processos de apuração de infração relativos ao conteúdo da programação veiculada. Os aspectos fiscalizados incluem o conteúdo da programação transmitida e a adequação às finalidades educativas, informativas e culturais dos serviços de radiodifusão. Ainda assim, nenhuma ação pública foi identificada em relação à Liberdade FM.
A Constituição Federal também é clara: a produção e a programação das emissoras de rádio e televisão devem atender a princípios como a promoção da cultura nacional e regional e o estímulo à produção independente, além da regionalização da produção cultural, artística e jornalística, conforme percentuais estabelecidos em lei. Uma emissora que retransmite integralmente o sinal de outro estado contradiz diretamente esses princípios.
Permanecem sem resposta pública as perguntas mais básicas: onde estão os programas produzidos em Sergipe? Onde estão os trabalhadores da comunicação local? E onde estão Anatel e Ministério das Comunicações para fiscalizar o cumprimento da concessão? O silêncio dos órgãos reguladores é, por si só, uma resposta.






