Uma denúncia formal protocolada junto ao Ministério Público do Estado da Bahia (MP-BA) pede a investigação de um suposto esquema de desvio de recursos públicos, favorecimento pessoal e fraude à licitação na Prefeitura de Madre de Deus, município da Região Metropolitana de Salvador, na gestão do prefeito Dailton Filho (PSB).
A prefeitura pagou mensalmente R$ 8.500,00 durante mais de três anos por um caminhão guincho que, segundo os registros oficiais do Tribunal de Contas dos Municípios da Bahia (TCM-BA), não foi abastecido nenhuma vez no período. A denúncia tem como base os dados de consumo de combustível do veículo obtidos diretamente pela Ouvidoria do TCM-BA.
O contrato foi celebrado entre o município e a empresa VLQ Comércio e Serviços Ltda, com objeto de locação de veículo especial do tipo "guincho", sem motorista e sem combustível, pelo custo mensal de R$ 8.500,00. O contrato, que começou com vigência de doze meses, foi renovado três vezes consecutivas e chegou a maio de 2026. Ao longo da vigência, a gestão acumulou ao menos 27 processos de pagamento — apesar de os registros de consumo de combustível apontarem que o veículo ficou parado de maio de 2022 a setembro de 2025.
Mesmo sem qualquer registro de abastecimento no sistema oficial de controle de frotas nesse intervalo de mais de 36 meses, a administração municipal assinou, em abril de 2024, um termo aditivo atestando formalmente que os serviços vinham sendo prestados "de maneira satisfatória", segundo informações divulgadas pelo portal A Tarde.
A representação também detalha uma teia de conexões societárias. Quando os dois sócios da empresa GUEMAG Transportes Técnicos Ltda. deixaram a sociedade em dezembro de 2021, quem assumiu o posto de sócio-administrador foi Thilas Emanuel dos Santos Souza. O problema é que Thilas, durante todo o período de vigência do contrato do guincho, constava também nas folhas de pagamento da Prefeitura Municipal de Madre de Deus — ou seja, a mesma pessoa que administrava a empresa era, ao mesmo tempo, servidor público do município que contratou a empresa representada por um desses ex-sócios.
Há ainda outra empresa no mapa societário: a Solucionar Serviços Administrativos Limitada, registrada em Florianópolis (SC). O secretário municipal de Governo, Sérgio Vagner Gandarela Guedes, é sócio da empresa desde julho de 2021 — e não está sozinho: também figuram como sócias, desde a mesma data, Mirela Moura Alves e Fabiana da Silva dos Santos, ambas com registro ativo nas folhas de pagamento da Prefeitura de Madre de Deus durante o período do contrato.
A irmã do secretário Sérgio Vagner, Elaine Cristina Gandarela Guedes, também é sócia da Solucionar desde julho de 2021 e mantém com a Prefeitura de Madre de Deus o Contrato nº 049/2025, pelo qual o município aluga um imóvel de sua propriedade por R$ 16.500,00 mensais — contrato que já foi objeto de denúncia anterior ao TCM-BA.
A representação ao MP-BA aponta ainda vícios formais no processo licitatório. Na Carta Convite nº 002/2022, a planilha de julgamento da Comissão de Licitação registrou que a VLQ apresentou a menor proposta (R$ 102.000,00), mas o parecer conclusivo declarou outra empresa como vencedora. Segundo a fonte original, a contradição foi corrigida em atos posteriores, mas a inconsistência documental permanece como indício de manipulação.
O caso não é o primeiro envolvendo a gestão do prefeito Dailton Filho. A Operação Xeque-Mate, deflagrada pelo MP-BA em dezembro de 2025, investigou fraudes em licitações, desvio de recursos públicos, lavagem de dinheiro e corrupção envolvendo agentes políticos do município; ao todo, a Unai e o Gaeco cumpriram 16 mandados de busca e apreensão em endereços de Madre de Deus, São Francisco do Conde, Senhor do Bonfim, Salvador e Lauro de Freitas.
Entre 2021 e 2023, mais de R$ 4,5 milhões foram movimentados de forma fraudulenta, segundo as investigações. À época, o prefeito Dailton Filho destacou que acompanha com responsabilidade o andamento das investigações e reforçou que qualquer conduta que viole os princípios da administração pública deve ser apurada com rigor, acrescentando que a Prefeitura não compactua com irregularidades e mantém medidas contínuas de controle interno. A reportagem do portal A Tarde, que deu origem à nova denúncia, afirma que a Prefeitura de Madre de Deus não respondeu aos questionamentos enviados.







