O óleo que resta nos tabuleiros das baianas de acarajé de Salvador vai deixar de ser um problema ambiental para se tornar matéria-prima de combustível renovável. Para Alex Gasparetto, presidente da Petrobras Biocombustível (PBio), essa iniciativa é a prova concreta de que a transição energética só se sustenta quando carrega junto as pessoas que mais precisam.
Em entrevista ao jornal A Tarde, concedida após o lançamento do programa de Óleos e Gorduras Residuais (OGR), Gasparetto defendeu o que chama de "transição energética justa" — um modelo que alia redução de emissões à geração de renda para trabalhadores da reciclagem e para as baianas de acarajé. "Ele é justo porque inclui e gera renda para a população", disse o executivo.
O programa foi lançado no dia 8 de junho, na Doca 1, no bairro do Comércio, em Salvador. A Prefeitura de Salvador e a PBio formalizaram o acordo, com o prefeito Bruno Reis assinando o decreto que institui o programa e abre edital para credenciamento de cooperativas de reciclagem. O lançamento coincidiu com o Dia Mundial dos Oceanos.
O objetivo central é reduzir o descarte irregular de óleo de cozinha, fortalecer cooperativas de reciclagem e criar novas oportunidades de geração de renda para trabalhadores da cadeia da reciclagem e para as baianas de acarajé. Todo o material coletado será encaminhado para a unidade da PBio em Candeias, onde será transformado em biodiesel.
Os números da cadeia mostram como a renda circula: as cooperativas credenciadas pagarão R$ 3 por quilo de óleo recolhido das baianas de acarajé, enquanto restaurantes e demais estabelecimentos receberão R$ 2 por quilo. Depois, as cooperativas poderão vender o produto à Petrobras Biocombustível, que atualmente paga em torno de R$ 7 por quilo, valor que varia conforme o mercado.
Atualmente, há um projeto-piloto em funcionamento atendendo cerca de 100 baianas de acarajé na cidade. Segundo a entrevista publicada pelo A Tarde, existem 1.100 baianas cadastradas na capital baiana — o programa agora mira ampliar essa base. Gasparetto revelou que, no ano passado, foram coletadas cerca de quatro toneladas de óleo pelas cooperativas, e que a expectativa é ampliar esse volume para entre 30 e 40 toneladas por mês com o novo convênio.
O combustível produzido será destinado tanto ao mercado interno quanto à exportação, e esta é a primeira iniciativa desenvolvida pela PBio em parceria direta com um município, embora a empresa já atue com cooperativas de catadores na Bahia e em Minas Gerais. Segundo a entrevista ao A Tarde, Salvador é a primeira cidade do convênio, mas o plano é replicar o modelo em outras prefeituras baianas como Pintadas, Candeias, Antônio Cardoso e Tanquinho.
A PBio opera duas usinas de biodiesel, em Montes Claros (MG) e Candeias (BA), além de estudar a reativação da unidade hibernada em Quixadá (CE). Desde 2024, a empresa passa por uma reestruturação para se tornar mais resiliente e busca maior aproximação com as iniciativas de transição energética e biorrefino da Petrobras.
Além de gerar emprego e renda para municípios do interior, a PBio é apontada como fundamental para uma transição energética justa, processo que precisará do protagonismo da Petrobras. Para Gasparetto, a combinação de treinamentos, equipamentos de proteção e investimento nas cooperativas é o caminho para que o valor chegue às mãos de quem mais precisa — das ruas de Salvador às usinas do Recôncavo Baiano.







