A morte do recém-nascido Levi, ocorrida no início de julho em Cabrobó, no Sertão de Pernambuco, abriu um conflito de versões entre a família da criança e a Secretaria Municipal de Saúde. De um lado, os pais denunciam que a burocracia da recepção do Hospital Municipal atrasou o acesso ao médico num momento crítico. Do outro, a gestão municipal afirma que todos os protocolos foram seguidos e que o bebê já não apresentava sinais de vida ao dar entrada na unidade.
Segundo relato encaminhado ao Blog do Didi Galvão pelo pai, José Sérgio, o bebê havia nascido no dia anterior, recebido alta hospitalar e retornado para casa. Ainda na noite de terça-feira, Levi passou a apresentar intensa dificuldade para respirar. Diante da gravidade, a família correu com a criança ao hospital.
Ao chegar à unidade, conforme o relato dos familiares, a recepção foi informada de que se tratava de um recém-nascido com falta de ar em situação de urgência. Mesmo assim, segundo eles, o bebê ficou aguardando na recepção enquanto o processo de cadastro e preenchimento de ficha era concluído. A família afirma ainda ter pedido que a criança fosse encaminhada imediatamente ao médico antes do término do cadastro — pedido que, segundo eles, não foi atendido.
Os familiares relatam também que o pai foi questionado sobre a ausência da mãe, que se encontrava em casa se recuperando da cirurgia do parto. De acordo com o relato, cerca de dez minutos depois da chegada, Levi foi finalmente levado ao atendimento médico. Ao receber a criança, a equipe iniciou imediatamente as tentativas de reanimação, mas o bebê já não apresentava sinais vitais.
Importante destacar que a própria família faz questão de isentar os profissionais de saúde — médicos e enfermeiros — de qualquer responsabilidade. A indignação dos parentes é direcionada exclusivamente à conduta da recepção da unidade. Segundo eles, Levi ainda respirava de forma ofegante enquanto aguardava e poderia ter sido encaminhado diretamente ao médico antes da conclusão da ficha.
Procurada pela reportagem do blog, a Secretaria Municipal de Saúde de Cabrobó apresentou uma versão diferente. Segundo o órgão, a responsável pela criança deu entrada na unidade às 19h30 e foi encaminhada imediatamente para avaliação médica, sem passar pela classificação de risco (triagem), justamente por se tratar de uma urgência — com a ficha sendo preenchida paralelamente. A Secretaria afirma ainda que, ao chegar ao serviço, a criança já se encontrava em óbito, e acrescenta que o recém-nascido não nasceu no município.
A nota oficial encerra com solidariedade à família: "Nos solidarizamos com os familiares pela perda e permanecemos à disposição para prestar os esclarecimentos necessários", diz o comunicado da Secretaria Municipal de Saúde de Cabrobó.
O caso provoca comoção em Cabrobó e levanta um debate já conhecido em unidades de saúde de pequenos municípios do Nordeste: o risco de que procedimentos administrativos de triagem se sobreponham à urgência clínica de pacientes — especialmente recém-nascidos, grupo de maior vulnerabilidade. Casos semelhantes de mortes de bebês em hospitais municipais de Pernambuco têm mobilizado Conselhos Tutelares e gerado apurações em diferentes municípios do estado nos últimos meses. Por ora, não há informação sobre abertura de sindicância ou investigação formal no caso de Cabrobó.







