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Neuropsicólogo denuncia "deserto assistencial" para autistas no interior de Alagoas

Para o especialista Luan Gama, crianças com TEA fora da capital alagoana vivem sem diagnóstico, sem terapia e sem suporte escolar real — e a realidade nordestina reflete um problema nacional.

Redação ChicoSabeTudoRedação · Saúde
27 de maio, 2026 · 06:25 4 min de leitura
Portal ChicoSabeTudo
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O neuropsicólogo Luan Gama não escolhe palavras quando o assunto é autismo fora de Maceió. Em entrevista ao portal CadaMinuto, o especialista classifica a situação de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) no interior de Alagoas como um "verdadeiro deserto assistencial" — e afirma que essas crianças seguem sem diagnóstico, sem tratamento e, na prática, invisíveis para o poder público.

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A denúncia ganha força quando confrontada com dados nacionais. O Censo 2022 do IBGE revelou que ao menos 2,4 milhões de brasileiros declaram ter diagnóstico médico de TEA — dado inédito que escancarou desigualdades profundas no acesso ao diagnóstico e às políticas de suporte. No Nordeste, os números absolutos somam 633 mil pessoas, com forte concentração dos diagnósticos no Sudeste do país. Para Luan Gama, Alagoas pode ter mais de 15 mil crianças e adolescentes no espectro, mas, sem um censo estadual eficiente, a maioria permanece invisível para as políticas públicas, segundo informações divulgadas pelo CadaMinuto.

O cenário se agrava quando entra em cena a questão do acesso ao SUS. Apesar de cerca de 25% da população brasileira ter plano de saúde, apenas 20,4% dos diagnósticos de TEA foram confirmados pelo Sistema Único de Saúde. Ainda mais crítico: só 15,5% dos entrevistados realizam terapias pela rede pública, enquanto mais de 60% precisam pagar do próprio bolso ou usar plano privado. Nas regiões Norte e Nordeste, a dependência do SUS para o diagnóstico é significativamente maior do que no Sul e Sudeste — o que torna o colapso assistencial ainda mais devastador para quem mora no interior alagoano.

Luan Gama descreve uma rotina exaustiva para as famílias de municípios pequenos: sem neuropediatras ou psiquiatras infantis disponíveis localmente pelo SUS, a única saída é embarcar nos ônibus do Tratamento Fora do Domicílio (TFD) e viajar de madrugada até Maceió ou Arapiraca em busca de uma consulta. O problema, segundo ele, é que o TEA exige abordagem multiprofissional e de alta intensidade — Psicologia com terapia ABA, Fonoaudiologia especializada e Terapia Ocupacional com foco em integração sensorial. As intervenções devem ser intensivas, com recomendação de 25 a 40 horas semanais por um período mínimo de um ano. Levar uma criança a Maceió três ou quatro vezes por semana, para uma família de baixa renda do interior, é simplesmente inviável, segundo o especialista.

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O resultado desse isolamento, alerta Gama, é dramático: crianças que crescem sem desenvolver a fala, sem se alfabetizar e que chegam à vida adulta com alto grau de dependência e, em muitos casos, comportamentos agressivos gerados pela falta de suporte na infância. Embora mais da metade dos diagnósticos ocorra entre 0 e 4 anos, a média de idade ao diagnóstico no Brasil chega a 11 anos — atraso que pode comprometer o início de intervenções precoces, consideradas fundamentais para o desenvolvimento.

Dentro das escolas, o problema se repete com outra roupagem. O neuropsicólogo denuncia que o que existe em grande parte das escolas municipais e estaduais de Alagoas é uma "inclusão no papel": a matrícula é garantida por lei, mas o suporte ao aluno praticamente não existe. Segundo ele, falta o profissional de apoio escolar qualificado — o mediador —, e em muitos casos o posto é ocupado por estagiários sem formação ou até funcionários deslocados de outras funções apenas para "vigiar" a criança. Para combater esse vazio pedagógico, o especialista orienta os pais a cobrarem o PEI (Plano de Ensino Individualizado), com currículo e avaliações adaptados. A Lei Berenice Piana garante esse direito.

A situação não é exclusiva de Alagoas. Um estudo realizado na Bahia identificou e mapeou os serviços públicos vinculados ao SUS para pessoas com TEA no estado e confirmou que a totalidade dos serviços é insuficiente para atender as demandas — e que a capital concentra a maior parte deles, em detrimento do interior. Pesquisadores apontam a desigualdade regional como determinante: falta acesso à informação, a atendimento qualificado e a recursos para terapia, e as regiões não centralizadas têm maior carência de profissionais capacitados. No Nordeste e no Norte do país, o peso dessa carência recai principalmente sobre famílias de baixa renda que dependem exclusivamente do serviço público.

Para Luan Gama, o caminho passa por diagnóstico precoce, formação de profissionais no próprio interior e estruturação de redes regionais de atendimento. Enquanto isso não acontece, os sinais de alerta ficam a cargo das famílias e dos profissionais de saúde dos postos locais: ausência de contato visual, atraso na fala, movimentos repetitivos, uso da mão do adulto como ferramenta e reações extremas a mudanças de rotina ou barulhos são os principais indicadores que devem motivar busca por avaliação especializada, segundo o especialista.

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