Uma ferida na boca que não cicatriza, rouquidão persistente ou um nódulo no pescoço que parece inofensivo. Esses sinais, muitas vezes ignorados no dia a dia, podem ser os primeiros indícios de um câncer de cabeça e pescoço — e é exatamente esse descuido que a campanha Julho Verde quer combater em julho de 2026.
O Julho Verde foi oficialmente instituído pela Lei 14.328, de 20 de abril de 2022, que estabelece julho como o Mês Nacional do Combate ao Câncer de Cabeça e Pescoço. A data foi escolhida por abrigar o Dia Mundial de Prevenção e Combate ao Câncer de Cabeça e Pescoço, em 27 de julho, e a campanha foi criada pela Sociedade Brasileira de Cirurgia de Cabeça e Pescoço (SBCCP) com apoio da Organização Mundial da Saúde.
Segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil deve registrar 42.150 novos casos de câncer de cabeça e pescoço em 2026. Entre os tumores da região, o câncer de cavidade oral apresenta a maior incidência, com previsão de mais de 17 mil novos casos no país. Na Bahia, a previsão é de aproximadamente 2.750 diagnósticos ao longo do ano.
De acordo com o INCA, cerca de 80% dos tumores de cabeça e pescoço são diagnosticados em estágios avançados — o que piora significativamente o prognóstico. O principal gargalo apontado por especialistas é o atraso no diagnóstico: o paciente leva muitos meses desde o primeiro sintoma até chegar ao especialista, seja pela demora em procurar atendimento ou pela subestimação das queixas. A identificação precoce da doença pode elevar as chances de cura para até 90%.
Para quem desconhece os sinais, a doença pode passar despercebida. Entre os principais sintomas estão feridas na boca que não cicatrizam por mais de 15 dias, rouquidão persistente, dificuldade para engolir, dor de garganta prolongada, caroços no pescoço, manchas na boca ou garganta, sangramentos sem causa aparente e perda de peso inexplicada. A recomendação de especialistas é procurar avaliação médica sempre que esses sintomas persistirem por mais de duas semanas.
A doença está fortemente relacionada a fatores de risco evitáveis, principalmente o tabagismo, o consumo excessivo de bebidas alcoólicas e a infecção pelo HPV. Fumantes têm cinco vezes mais chance de desenvolver a doença. Quando o tabagismo e o consumo de álcool são combinados, o risco aumenta em dez vezes. Os cigarros eletrônicos também estão associados ao surgimento desses tumores.
Não fumar, evitar o consumo excessivo de bebidas alcoólicas, fazer visitas regulares ao dentista, usar preservativo nas relações sexuais, aplicar protetor solar nos lábios e manter boa higiene bucal são hábitos que reduzem os riscos. A vacina contra o HPV, recomendada para meninas e meninos de 9 a 14 anos e disponível gratuitamente no SUS, também é fundamental para a prevenção.
Em Sergipe, a Associação dos Amigos da Oncologia (AMO) participa da campanha e divulgou números expressivos. Segundo a entidade, apenas em 2025 foram acolhidos 1.672 pacientes oncológicos com benefícios e serviços socioassistenciais, sendo 702 casos novos — uma média de quase 60 novos diagnósticos por mês. Entre os casos de cabeça e pescoço, 19 foram de câncer de laringe e 18 de cavidade oral, incluindo tumores de língua, boca e palato.
No cenário geral, o Brasil deve registrar 781 mil novos casos de câncer por ano até 2028. As previsões confirmam que a doença vem se consolidando como uma das principais causas de adoecimento e morte no país, aproximando-se das doenças cardiovasculares. Para os especialistas, o caminho passa por mais informação, prevenção e acesso ao diagnóstico precoce — e o Julho Verde é a principal vitrine desse esforço.







