O prefeito de Feira de Santana, José Ronaldo (União Brasil), foi direto ao ponto ao ser questionado sobre um projeto aprovado na Câmara Municipal que propõe a distribuição gratuita da tirzepatida — comercializada como Mounjaro — nas unidades de saúde da cidade: o dinheiro não existe. "O município não tem condições financeiras de bancar um projeto grandioso como esse", declarou o gestor, em entrevista concedida na segunda-feira (25) ao portal Altos Papos.
A fala é uma resposta direta à iniciativa do vereador Marcos Lima (União Brasil), presidente da Câmara Municipal. O projeto, aprovado em primeira votação, autoriza a distribuição gratuita da tirzepatida na rede pública e tem como foco o tratamento de diabetes tipo 2 em crianças e adolescentes de 10 a 17 anos, permitindo que a prefeitura estabeleça diretrizes para aplicação do medicamento nas Unidades de Saúde da Família (USFs).
Reconhecendo a intenção do vereador, o prefeito ponderou: "A iniciativa do nobre presidente é louvável em termo de pensar no próximo, tudo isso é muito bonito, é bacana, mas o município não tem condições financeiras de bancar". E foi ainda mais enfático sobre a impossibilidade imediata: "A gente sabe que é um investimento muito alto para poder realizar isso, então nós não temos condições de implantar isso no momento".
O custo do medicamento ajuda a entender o impasse. O preço oficial da tirzepatida, regulado pela CMED (Anvisa), varia entre R$ 1.523,06 e R$ 4.067,81, conforme a dose e a tributação aplicada. Para uma rede pública atendendo centenas ou milhares de pacientes, a conta seria milionária.
O autor do projeto, vereador Marcos Lima, havia demonstrado otimismo após a aprovação em primeira discussão. Segundo o parlamentar, a proposta tem como objetivo ampliar o acesso ao tratamento, especialmente para a população de baixa renda, e desopilar a saúde básica do município. Marcos Lima argumentou ainda que, com a quebra de patente, o medicamento ficaria mais barato, e que a compra em grande volume reduziria o custo — sendo preferível investir no remédio a arcar com tratamentos mais longos e custosos, como a cirurgia bariátrica ou o controle permanente do diabetes tipo 2.
A proposta ainda depende de nova votação na Casa antes de seguir para sanção do Executivo. Mesmo que seja aprovada em definitivo pelos vereadores, a implementação está condicionada à disponibilidade orçamentária do município — e o prefeito já sinalizou que essa disponibilidade não existe.
O projeto determina que o uso do medicamento seja feito apenas com prescrição médica e como estratégia complementar no tratamento da obesidade. Caberá à Secretaria Municipal de Saúde definir os critérios de acesso, com base nas diretrizes do SUS e na viabilidade orçamentária local. O texto também prevê acompanhamento multiprofissional — com suporte médico, nutricional e psicológico — e incentivo à prática de atividades físicas.
O Mounjaro é um medicamento desenvolvido pelo laboratório americano Eli Lilly para o tratamento do diabetes tipo 2. Seu princípio ativo, a tirzepatida, é o primeiro da classe a atuar ativando os receptores GLP-1 e GIP simultaneamente — hormônios envolvidos no controle do açúcar no sangue e no apetite —, e o remédio demonstra resultados de emagrecimento de até 15% do peso corporal total em estudos clínicos. A combinação dessas características o tornou um dos medicamentos mais procurados no Brasil nos últimos meses.
Com a posição do prefeito clara, o projeto de lei enfrenta agora um obstáculo que vai além da aprovação legislativa. Mesmo com boa vontade política dos vereadores, a distribuição gratuita do Mounjaro em Feira de Santana depende de uma conta que, segundo José Ronaldo, o município simplesmente não tem como fechar.







