O senador Jaques Wagner (PT-BA) tentou registrar a venda de um terreno de 51 mil metros quadrados em Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador, avaliado em R$ 15,8 milhões, no dia seguinte ao de uma operação da Polícia Federal que o teve como alvo. A transação, porém, foi bloqueada antes de ser concluída.
Em 19 de junho, a escritura de compra e venda do terreno foi apresentada em cartório na comarca de Camaçari. A transação não foi registrada em razão de uma decisão do ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal. O bloqueio foi determinado para impedir qualquer movimentação envolvendo o imóvel durante o andamento das investigações.
O terreno estava sendo repassado para uma empresa que tem entre os sócios o Grupo City, controlador da SAF do Esporte Clube Bahia, e deveria integrar um futuro empreendimento imobiliário ao lado de um novo centro de treinamento do clube. A diretoria de comunicação do Bahia informou que foram comprados terrenos de cinco proprietários diferentes na região, com critérios de mercado, e que o imóvel de Wagner representa cerca de 4% da área total negociada — e que o bloqueio judicial não deve comprometer o andamento do projeto.
Além da tentativa de venda do terreno, Wagner também negociava a venda do apartamento onde reside, em Salvador, por R$ 10 milhões. O imóvel de 152 metros quadrados teria sido vendido ao prefeito de Conceição do Coité, Marcelo Passos (União Brasil), adversário político do PT na Bahia. A negociação havia sido iniciada antes da operação da Polícia Federal, e o pedido de registro foi protocolado em 10 de junho, oito dias antes da ação da PF. No entanto, o cartório ainda reunia a documentação necessária quando recebeu a ordem do STF determinando a indisponibilidade dos bens, o que impediu a conclusão do registro.
Somadas, as duas vendas chegam a R$ 25,8 milhões, dos quais Wagner já teria recebido ao menos R$ 12 milhões, mesmo com as escrituras travadas pela Justiça.
O prefeito Marcelo Passos confirmou as transações e se declarou "terceiro de boa-fé". Ele enviou petição ao STF e aos cartórios pedindo a liberação dos imóveis, argumentando que os negócios foram firmados no final de 2025 e quitados em abril de 2026, antes de a operação da PF vir a público.
A defesa do senador, por sua vez, negou qualquer irregularidade. O advogado Pablo Domingues afirmou: "A defesa do senador Jaques Wagner esclarece que ele não se manifestará sobre condutas que não sejam sobre sua campanha eleitoral. Todos os demais assuntos estão e continuarão sendo tratados judicialmente. Todos os fatos apurados são públicos e com registros públicos. Não há mínima irregularidade e nem nada a esconder."
A Operação Compliance Zero investiga suspeitas de pagamentos de vantagens indevidas a agentes públicos ligados ao Banco Master. No caso de Wagner, a Polícia Federal apura se o senador recebeu benefícios para atuar em favor dos interesses do empresário Daniel Vorcaro, controlador da instituição financeira. As apurações incluem suposto favorecimento indevido ao parlamentar, entre eles um pedido para que o ex-sócio do Banco Master, Augusto Lima, adquirisse um apartamento avaliado em R$ 2,5 milhões em Salvador — o senador sustenta que a compra foi solicitada para que ele pudesse recomprar o imóvel em benefício da filha.
O desgaste das investigações e o bloqueio dos bens forçaram a saída de Jaques Wagner do posto de líder do governo Lula no Senado, por pressão do Palácio do Planalto. O caso segue sob relatoria do ministro André Mendonça no STF.







