A Justiça determinou o afastamento imediato de três médicos investigados por suspeitas de irregularidades em um mutirão de cirurgias de catarata realizado em Salvador. A decisão foi divulgada nesta quarta-feira (20) pela Polícia Civil da Bahia e atinge profissionais que atuavam na Clínica Clivan, localizada na Avenida Anita Garibaldi.
De acordo com as investigações, o mutirão ocorreu no dia 26 de fevereiro. Dos 138 idosos submetidos aos procedimentos, 33 apresentaram complicações no pós-operatório, segundo informações divulgadas pelo portal Voz da Bahia. Entre os casos monitorados pelas autoridades, ao menos 13 pacientes tiveram perda parcial ou total da visão, conforme confirmou a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de Salvador.
Os casos mais graves envolveram infecções severas e necessidade de evisceração ocular — cirurgia em que o conteúdo interno do olho é removido. Pacientes relataram dores intensas, sangramento e perda progressiva da visão nos dias seguintes às cirurgias.
O afastamento dos médicos foi expedido pela 1ª Vara das Garantias de Salvador, a pedido da Delegacia Especial de Atendimento ao Idoso (Deati), ligada ao Departamento de Proteção à Mulher, Cidadania e Pessoas Vulneráveis (DPMCV). Segundo a Polícia Civil, o objetivo é evitar interferências nas investigações e preservar elementos essenciais para a apuração. Durante a operação, equipes policiais também cumpriram mandados de busca e apreensão na clínica, recolhendo documentos cirúrgicos, receitas, notas fiscais e equipamentos eletrônicos, que foram encaminhados ao Departamento de Polícia Técnica (DPT).
A clínica já havia sido interditada pela SMS no início de março, logo após as primeiras denúncias. A Secretaria também suspendeu o contrato da unidade com o município. A pasta informou ainda que o mutirão não havia sido autorizado pela Prefeitura de Salvador, o que, segundo o órgão, descumpre o fluxo regular de regulação do SUS e configura irregularidade grave. Apesar de ser uma instituição privada, a Clivan realizava atendimentos por meio de convênio com o Sistema Único de Saúde (SUS).
A Polícia Civil contabiliza dezenas de registros no caso, entre denúncias de lesão corporal culposa e possíveis infrações sanitárias. As investigações também analisam indícios de crimes envolvendo risco à saúde dos pacientes. Testemunhas já foram ouvidas, e laudos periciais estão em curso para determinar a causa das complicações.
Em nota, a Clínica Clivan afirmou que todos os protocolos clínicos, técnicos e de biossegurança foram seguidos e classificou o episódio como pontual, ressaltando que realiza mais de 8 mil cirurgias por ano. A unidade disse ainda que permanece acompanhando os pacientes e colaborando com as investigações. O Conselho Regional de Medicina da Bahia (Cremeb) foi notificado e realizou fiscalização no local, com relatório técnico em elaboração.
Os pacientes afetados, em sua maioria idosos, seguem sendo acompanhados pela rede municipal de saúde. O caso chegou ao conhecimento da Polícia principalmente por meio de boletins de ocorrência registrados na Deati por familiares das vítimas.







