Trocar de óculos com frequência, enxergar imagens distorcidas mesmo com a receita atualizada e sentir que a visão não melhora de jeito nenhum. Esses sinais podem não ser simples problemas de refração — e sim os primeiros indícios de uma doença progressiva que atinge principalmente adolescentes e jovens adultos: o ceratocone.
Segundo o Ministério da Saúde, o ceratocone é considerado a principal causa de transplante de córnea no Brasil, acometendo cerca de 150 mil brasileiros por ano, com diagnóstico mais frequente entre os 10 e 25 anos de idade. Em junho, a campanha Junho Violeta reforça a necessidade de identificar a doença cedo, antes que ela avance para estágios mais graves.
O ceratocone é uma doença progressiva que afeta a córnea, estrutura transparente localizada na parte frontal dos olhos, provocando afinamento e deformação do tecido. Com isso, a córnea passa a assumir um formato irregular, prejudicando a formação das imagens e causando distorções visuais.
Entre os principais sintomas estão visão embaçada, aumento frequente do grau dos óculos, dificuldade para enxergar à noite, sensibilidade à luz, visão dupla em um dos olhos e imagens distorcidas. Em muitos casos, o paciente percebe que os óculos deixam de proporcionar uma boa visão mesmo após sucessivas trocas de lentes.
Um hábito aparentemente inofensivo pode estar acelerando a progressão da doença sem que o paciente perceba. "O ato de coçar os olhos é um dos fatores mais importantes relacionados à progressão do ceratocone. O trauma mecânico repetitivo pode enfraquecer ainda mais a córnea e acelerar a evolução da doença. Por isso, controlar a coceira e evitar esfregar os olhos é uma orientação fundamental", alerta o oftalmologista Leiser Franco, presidente da Sociedade Goiana de Oftalmologia.
Embora qualquer pessoa possa desenvolver a condição, ela é mais comum em adolescentes e jovens adultos. Pessoas com histórico familiar da doença, alergias oculares, rinite, asma ou dermatite atópica apresentam maior risco. O impacto vai além da visão: o diagnóstico tardio pode comprometer atividades cotidianas, o desempenho escolar, a vida profissional e o bem-estar ao longo dos anos.
De acordo com dados do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO), o ceratocone está entre as principais causas dos mais de 13 mil transplantes de córnea realizados anualmente no país. Só em 2023, foram mais de 16 mil procedimentos.
O cenário, porém, vem mudando com o avanço das técnicas médicas. Uma das opções de tratamento mais eficazes para retardar a progressão do ceratocone é o crosslinking corneano, procedimento que visa fortalecer a córnea e estabilizar a doença. A detecção precoce é fundamental para a possibilidade de utilização do crosslinking, que visa promover a estabilidade da doença e impedir sua progressão. As opções terapêuticas variam conforme o estágio e podem envolver desde óculos e lentes de contato até procedimentos cirúrgicos, sempre com indicação individualizada.
Hoje, exames modernos permitem identificar o ceratocone ainda em fases iniciais, muitas vezes antes mesmo de o paciente perceber alterações importantes na visão. O diagnóstico precoce é fundamental porque possibilita a realização de tratamentos capazes de interromper ou retardar a progressão da doença.
"A consulta regular com o oftalmologista é a principal ferramenta para um diagnóstico precoce, sobretudo em adolescentes e pacientes jovens." A orientação vale especialmente para famílias do Nordeste, onde o calor intenso e a alta incidência de alergias respiratórias — fatores de risco para o ceratocone — tornam o acompanhamento oftalmológico ainda mais importante.
A mensagem da campanha Junho Violeta é clara: ao perceber qualquer alteração visual, a orientação é não adiar a consulta com um especialista, pois cuidar da saúde dos olhos hoje é investir na preservação da visão no futuro.







