Um grupo de pesquisadores brasileiros de diferentes universidades analisou amostras reais de esgoto coletadas em Salvador e Porto Seguro e encontrou uma variedade de substâncias psicoativas nas águas residuais das duas cidades baianas. A pesquisa, divulgada em 11 de maio de 2026, usa o que cientistas chamam de "epidemiologia do esgoto" — uma abordagem que estima o consumo comunitário de drogas sem depender de pesquisas de opinião ou registros médicos.
O método utilizado foi a microextração dispersiva em fase sólida, técnica que consegue extrair e concentrar compostos em quantidades mínimas — da ordem de nanogramas por litro — presentes nas águas residuais. Com isso, os pesquisadores conseguiram quantificar onze substâncias-alvo, entre drogas ilícitas e seus metabólitos, e ainda detectar dezenas de outros compostos farmacêuticos por meio de triagem ampliada.
A cocaína foi a substância mais encontrada. As concentrações variaram de 9,56 a 2.392 nanogramas por litro, com média em torno de 21 ng/L. Segundo informações divulgadas pelo Bahia Notícias, os valores máximos registrados nas amostras baianas foram milhares de vezes superiores aos encontrados em locais como Guarujá, no litoral paulista — o que sugere um nível de consumo proporcionalmente muito elevado nas cidades analisadas.
Entre os achados mais chamou atenção o cocaetileno, substância que só aparece no organismo — e portanto no esgoto — quando há consumo simultâneo de cocaína e bebidas alcoólicas. A presença desse composto indica um padrão específico de uso combinado na população das cidades estudadas.
O estudo também detectou, em concentrações menores, canabinoides, fentanil, medicamentos para o coração, antidepressivos, cafeína e hormônios. A presença do fentanil é um dado relevante: o opioide sintético, responsável por uma grave crise de mortes por overdose nos Estados Unidos, ainda tem circulação limitada no Brasil, mas sua detecção no esgoto baiano acende um alerta sobre possível expansão do uso no país.
A abordagem tem respaldo científico consolidado. A quantificação de moléculas de drogas ilícitas, seus metabólitos e adulterantes em amostras de esgoto tem permitido estimar o consumo comunitário de cocaína, cannabis, anfetaminas, opioides e novas drogas sintéticas, entre outras. Entre as vantagens da técnica está a capacidade de monitorar tendências espaciais e temporais, produzir resultados em tempo quase real e gerar informações sobre toda uma população.
No contexto mais amplo, pesquisadores reforçam a centralidade da vigilância epidemiológica em álcool e outras drogas como função permanente do sistema de saúde e de proteção social, destacando a importância desse tipo de pesquisa para orientar políticas de atendimento. Os autores do estudo baiano seguem a mesma linha: segundo eles, a análise do esgoto pode ajudar autoridades a compreender a circulação de drogas em determinado território e embasar políticas públicas mais eficazes.
Globalmente, a cannabis segue como a substância mais consumida no mundo, com 244 milhões de usuários, enquanto a produção e o uso de cocaína atingiram níveis recordes, com 3.708 toneladas produzidas e 25 milhões de usuários em 2023 — um aumento de 47% em relação a 2013. O cenário reforça a relevância de ferramentas como a epidemiologia do esgoto para mapear o problema em escala local.
A Bahia, que já figura entre os estados com maior índice de violência relacionada ao tráfico, passa a contar com mais um instrumento científico para dimensionar o problema das drogas além dos dados policiais — desta vez, olhando diretamente para o que a população descarta nas redes de saneamento.







