Enquanto a delação de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, ainda tem seu conteúdo guardado a sete chaves, o PT já movimenta suas peças para conter possíveis danos políticos. A estratégia que circula nos corredores do partido é chamada de "tese do CPF": se algum nome petista aparecer nas investigações, a defesa deve ser travada de forma individual, sem responsabilizar o partido como um todo.
A apuração é da jornalista Tainá Falcão, da CNN Brasil. Segundo ela, lideranças do PT passaram a trabalhar com essa tese antes mesmo de conhecer o teor do acordo de colaboração firmado por Vorcaro. A avaliação interna é de que acusações contra pessoas do entorno do governo não podem ser tratadas como culpa coletiva da sigla.
O maior temor dentro do partido, no entanto, não está diretamente em Vorcaro. O empresário baiano Augusto Ferreira Lima, conhecido como "Guga Lima", é o nome que mais preocupa o Palácio do Planalto no caso Master. Ex-sócio do banqueiro, Lima tem raízes no PT da Bahia e, segundo dirigentes ouvidos pela CNN, representa um elo mais delicado do que o próprio Vorcaro com o núcleo petista.
A trajetória de Augusto Lima no mercado financeiro passou diretamente pela Bahia governada pelo PT. A ascensão dele no setor financeiro começou com a aquisição, em 2018, da Empresa Baiana de Alimentos (Ebal) — estatal responsável pela rede de supermercados Cesta do Povo — em um processo de privatização promovido pelo então governador Rui Costa (PT). A partir daí, Lima reestruturou o braço financeiro ligado ao Cesta do Povo, transformando o cartão da rede em um produto de crédito consignado — o Credcesta — que contou com forte adesão entre servidores públicos e aposentados e tornou-se um dos ativos mais lucrativos do Banco Master após a entrada de Lima na sociedade com Vorcaro, em 2020.
O senador Jaques Wagner (PT-BA) disse, por meio de nota, que em 2017, quando era secretário de Desenvolvimento Econômico da Bahia, teve conversas com Lima sobre a privatização da Ebal e do Supermercado Cesta do Povo. A oposição tem explorado esse histórico para tentar associar o caso ao núcleo petista baiano. Nos bastidores, porém, dirigentes do PT argumentam que uma interlocução institucional com empresários não configura, por si só, nenhuma irregularidade.
O receio é que eventuais detalhes da relação de Lima com petistas, na versão de Vorcaro, sejam divulgados sem provas, dando origem a uma exploração política em pleno ano eleitoral. O PT teme que uma eventual rejeição da proposta de delação de Vorcaro leve a vazamentos seletivos de trechos da colaboração. A avaliação na sigla é de que o ex-banqueiro não apresentará provas suficientes e terá o acordo recusado pelo procurador-geral da República, Paulo Gonet — e que, caso isso ocorra, trechos da delação passem a ser usados politicamente.
Para responder às associações feitas pela oposição, petistas têm reforçado o discurso de que o Banco Master cresceu de forma exponencial entre 2019 e 2024, quando o patrimônio líquido saltou de 200 milhões de reais para 4,7 bilhões de reais — período em que o país era governado por Jair Bolsonaro. A avaliação interna é de que adversários tentam transformar relações construídas ao longo de anos com empresários em acusações políticas.
A cúpula do PT tem defendido que a pré-campanha de Lula não fique acuada diante do Caso Master e enfrente o tema da corrupção, considerado sensível para a sigla diante de desgastes históricos como o Mensalão e a Lava Jato. Apesar do discurso público de que não há nada a temer, a prioridade da cúpula, segundo a apuração da CNN Brasil, é impedir que eventuais acusações contra pessoas do entorno contaminem o caminho eleitoral de Lula.







