Na política alagoana, o que se fala em público raramente bate com o que se move nos bastidores. E em 2026, tudo indica que a velha máxima vai se confirmar mais uma vez — desta vez envolvendo Arthur Lira (PP) e Renan Calheiros (MDB), adversários históricos que, segundo análises recentes, estariam construindo silenciosamente uma composição eleitoral.
A tese ganha força quando se observa o papel dos chamados "primos Pereira" nesse xadrez. Segundo análise do portal Cada Minuto, ao aproximar o grupo ligado aos Pereira do campo Dantas/MV/Calheiros, Lira estaria sinalizando que a aliança com os Renans está feita — porém de forma discreta, longe dos holofotes, para não incomodar quem ainda os enxerga como rivais declarados.
O controle que Lira exerce sobre o grupo dos Pereira é descrito como rigoroso. Um exemplo citado é o freio colocado em uma potencial candidatura de Jó Pereira a deputada federal, mesmo ela sendo considerada uma das parlamentares de maior destaque na Assembleia Legislativa de Alagoas nas últimas décadas.
O cenário tem precedente histórico claro. Os Calheiros e os Lira já estiveram juntos na base dos governos Lula, Dilma Rousseff e Michel Temer. Em 2010, Renan e Benedito de Lira — pai do presidente da Câmara e prefeito de Barra de São Miguel — foram eleitos numa dobradinha para o Senado. A ruptura veio depois: a rivalidade entre as duas famílias se intensificou em 2014, durante as eleições majoritárias. Naquele ano, Biu de Lira propôs uma aliança com Renan Calheiros, sugerindo que encabeçaria a chapa para governador, com Renan Filho como seu vice. No entanto, Renan não aceitou a proposta e indicou que seria seu filho quem deveria liderar a chapa. Esse foi o ponto de ruptura definitiva entre os dois.
Mesmo após anos de trocas de farpas públicas, os bastidores da política alagoana pintam um cenário bem diferente. A movimentação de lideranças locais e regionais indica que adversários históricos, ligados tanto a Lira quanto a Renan, vêm convergindo em torno de uma possível composição eleitoral para 2026. Nos bastidores, já se fala até em "Aliança Branca" — numa referência ao esforço de apagar rivalidades em nome da sobrevivência política.
A lógica por trás do movimento é territorial. A principal necessidade eleitoral de Arthur Lira estaria concentrada em Maceió, e não nos municípios do interior alagoano. De acordo com análises, a maior parte da base política de prefeitos que apoiam Renan Calheiros e Renan Filho já mantém alinhamento político com o deputado federal. Ou seja: os dois grupos compartilham redutos no interior, e ambos enfrentam resistências na capital.
Fontes revelam que prefeitos, deputados e empresários tradicionalmente ligados a Renan Calheiros estão inclinados a apoiar também a candidatura de Arthur Lira ao Senado. O mesmo ocorre no sentido inverso: quadros do Progressistas, alinhados a Lira, demonstram disposição de votar em Renan para garantir dois assentos alagoanos na Câmara Alta, numa espécie de "dobradinha improvável".
Em público, porém, o roteiro é de confronto. Renan Calheiros chegou a descartar qualquer possibilidade de aliança eleitoral com Lira para as duas vagas ao Senado em 2026 e ironizou o futuro político do deputado. PL, PP e União Brasil divulgaram nota conjunta em que os deputados Arthur Lira e Alfredo Gaspar anunciam uma chapa para disputar as duas vagas ao Senado por Alagoas em 2026. O movimento foi articulado para enfrentar o grupo liderado pelo senador Renan Calheiros, principal adversário político de Lira em Alagoas, e por Renan Filho, pré-candidato ao governo do estado.
Embora publicamente Arthur Lira e Renan Calheiros mantenham a retórica de confronto, a realidade nos palanques de Alagoas caminha em direção oposta. E o eleitor alagoano, mais uma vez, pode assistir a um espetáculo de união entre opostos — sob a velha e conhecida tática da sobrevivência política. O script, segundo observadores, já foi testado antes. E funcionou.







