A Prefeitura de Simões Filho, na Região Metropolitana de Salvador, fechou um contrato de R$ 8,03 milhões para modernizar o sistema de semáforos da cidade. O negócio levantou suspeitas desde o início: não houve licitação própria, a empresa contratada fica em Goiânia e foi aberta há poucos meses.
O acordo foi firmado com o Consórcio Semáforo Mineiros, sediado em Goiânia (GO). Segundo dados da Receita Federal, a empresa foi aberta em 23 de março deste ano. Ou seja: a gestão municipal de Simões Filho contratou, por quase R$ 8,1 milhões, um consórcio com apenas semanas de existência.
A contratação não ocorreu por meio de licitação própria. A gestão municipal optou por aderir à Ata de Registro de Preços da cidade de Mineiros (GO), referente ao Pregão Eletrônico nº 072/2025 — mecanismo conhecido como "carona", que permite aproveitar preços já registrados por outro município.
O serviço prevê manutenção, reposição e modernização do sistema semafórico, incluindo compra de peças, contratação de mão de obra e fornecimento de equipamentos. O contrato tem vigência de um ano, entre 19 de maio de 2026 e 18 de maio de 2027.
Segundo informações divulgadas pelo portal BNews, o consórcio é formado por empresas que já tentaram espaço em Salvador. Uma delas chegou a disputar a PPP de iluminação pública da capital. Outra já tentou emplacar equipamentos em contratos de maior porte na cidade, especialmente nas áreas de monitoramento e controle de tráfego. Mesmo com sede fora da Bahia, vão agora cuidar do trânsito de Simões Filho.
O contraste com a realidade da cidade não passou despercebido. Enquanto moradores convivem com buracos, falta de pavimentação e problemas básicos de infraestrutura, a prefeitura destinou quase R$ 8,1 milhões a semáforos por meio de um consórcio recém-criado em outro estado. O apelido já circula nas ruas: "Semáforo de Ouro".
O uso do mecanismo de "carona" em atas de registro de preços é legalmente permitido pela legislação brasileira de licitações, mas tem sido alvo de questionamentos quando envolve valores elevados, fornecedores distantes e ausência de pesquisa comparativa de preços com o mercado local. Outros contratos de Simões Filho já foram firmados por esse mesmo método, segundo registros públicos consultados pela reportagem.
Segundo a coluna "Na Sombra do Poder", do BNews, o Ministério Público da Bahia (MPBA) está monitorando o caso e o portal vem catalogando denúncias relacionadas à gestão municipal. A prefeitura de Simões Filho não se pronunciou publicamente sobre as suspeitas que envolvem especificamente este contrato até a publicação desta reportagem.
O caso se soma a um cenário mais amplo de questionamentos sobre contratos públicos no estado. Em outro desdobramento investigado no âmbito baiano, o STJ recebeu parcialmente uma nova denúncia do Ministério Público Federal contra pessoas investigadas na Operação Faroeste, que apura crimes de lavagem de dinheiro, corrupção, formação de organização criminosa e venda de decisões judiciais relacionadas a esquema de grilagem no oeste da Bahia. O recado é o mesmo em ambos os cenários: a fiscalização sobre o uso do dinheiro público na Bahia não arrefeceu.







