A disputa global por minerais que movem carros elétricos, turbinas eólicas, chips e sistemas de defesa ganhou um novo protagonista no Brasil: a Bahia. O estado concentra entre 33% e 40% de todas as áreas de pesquisa de terras raras do país, segundo dados da Agência Nacional de Mineração (ANM) e da Companhia Baiana de Pesquisa Mineral (CBPM). Esse volume de pesquisas já posiciona a Bahia como referência nacional no setor — e começa a atrair capital estrangeiro de peso.
O termo "terras raras" pode enganar. As chamadas terras raras formam um grupo de 17 elementos químicos — os 15 lantanídeos, além do escândio e do ítrio. Eles não são exatamente escassos na natureza, mas aparecem dispersos na crosta terrestre e exigem processamento complexo, o que limita quem consegue dominá-los. A extração e purificação de terras raras são processos complexos e caros, dominados pela China.
O peso chinês na cadeia é impressionante. A China domina a produção mundial, com mais de 270 mil toneladas extraídas em 2024, enquanto o Brasil, apesar de ter a segunda maior reserva do mundo — cerca de 21 milhões de toneladas, segundo o U.S. Geological Survey 2024 —, produziu apenas 20 toneladas no mesmo ano. A diferença entre reserva e produção resume o desafio que o país enfrenta para se tornar de fato um fornecedor relevante.
É nesse cenário que a Bahia surge com vantagem. O contexto geológico do estado reúne uma combinação única de unidades com potencial gerador de depósitos de terras raras, e essa diversidade é refletida no fato de o estado ser o atual polo emergente para exploração do setor. Do ponto de vista estratégico, a Bahia reúne não apenas diversidade geológica, mas também infraestrutura e atratividade para investimentos, configurando-se como referência nacional na prospecção e no desenvolvimento de projetos voltados às terras raras.
O projeto mais avançado é o Monte Alto, no Recôncavo Sul. A Borborema Recursos Estratégicos, controlada pela BRE (Brazilian Rare Earths), empresa listada na bolsa australiana, pretende investir até R$ 3,6 bilhões para implantação de uma mina e planta de concentração de terras raras em Jiquiriçá e Ubaíra, e uma planta de separação de óxidos em Camaçari. O diferencial que chama atenção é o teor do depósito: o projeto visa o aproveitamento daquele que é descrito como provavelmente o depósito de maior teor de terras raras reportado no mundo, com média superior a 15% de TREO.
Além da elevada concentração de TREO, o projeto tem como diferencial a mineralogia do depósito, com altas concentrações de neodímio, praseodímio, disprósio e térbio, tendo ainda como coprodutos urânio, tântalo e escândio. A BRE fechou parceria com a empresa francesa Carester, de tecnologia industrial, que foca na reciclagem de ímãs permanentes e na refinação de concentrados minerais para reduzir a dependência ocidental do mercado chinês. Com ela, a BRE fechou contrato de off-take pelo qual os franceses se comprometem a fornecer a tecnologia de separação e apoiar o desenvolvimento do projeto.
O plano financeiro é escalonado. A empresa assinou memorando de entendimentos com o governo da Bahia, com previsão de investimento da ordem de R$ 600 milhões numa primeira fase, até a etapa do concentrado. A primeira fase focará na produção de concentrado mineral de óxidos de terras raras, com início previsto para 2028. A segunda fase, no Polo Industrial de Camaçari, envolve a separação de óxidos, com capacidade inicial de 15 mil toneladas por ano, expansível para 55 mil toneladas por ano até 2034.
No Extremo Sul da Bahia, outro projeto avança em paralelo. A Energy Fuels adquiriu 17 direitos minerários nas regiões de Prado, Alcobaça e Caravelas, com foco em minerais como tório, lantânio e cério, cruciais para a transição energética. No Extremo Sul, especialmente em Cumuruxatiba (Prado) e Alcobaça, há registros históricos de monazita, um mineral rico em terras raras, explorado desde o século XIX.
Para viabilizar a operação e desenvolver mão de obra especializada, a Borborema firmou parceria com o Senai Cimatec para o desenvolvimento de uma planta piloto e a capacitação de profissionais, fortalecendo a indústria de alta tecnologia no estado. Projetos como o Monte Alto podem impulsionar a economia local, com geração de empregos e infraestrutura em municípios como Ubaíra, Jiquiriçá e Jequié.
O cenário político também evoluiu. A Câmara dos Deputados aprovou o projeto que cria o Marco Legal dos Minerais Críticos, que segue agora para o Senado. O tema das terras raras é apontado como estratégico nas negociações do governo brasileiro para ampliar o peso do país na nova geopolítica da energia e da tecnologia. Para a Bahia, que já detém o maior acervo de pesquisas do país nessa área, o momento pode ser decisivo para transformar potencial geológico em desenvolvimento econômico concreto.







