Uma pergunta circula pelos bastidores da política sergipana: como políticos abertamente bolsonaristas conseguem manter cargos e influência dentro de um governo cujo titular declara apoio à reeleição do presidente Lula? O caso do capitão Samuel e do senador Laércio Oliveira ilustra bem essa contradição.
Segundo informações divulgadas pelo blog Cláudio Nunes, do portal Infonet, o capitão Samuel concedeu entrevista à rádio FAN FM em que afirmou estar filiado ao PL — partido de Bolsonaro — mas defendeu abertamente o governador Fábio Mitidieri (PSD), que apoia Lula. A explicação, segundo a coluna, seria simples: Samuel ainda mantém dezenas de cargos comissionados no governo estadual.
Na prática, Samuel ocupa a presidência da Fundação Renascer do Estado de Sergipe, cargo para o qual foi anunciado pelo próprio governador Fábio Mitidieri desde o início da gestão, em janeiro de 2023. A Fundação Renascer é responsável pela execução de medidas socioeducativas para adolescentes em conflito com a lei em Sergipe.
Ao mesmo tempo em que ocupa esse posto no governo, Samuel vai às ruas e às redes sociais pedir o "fora Lula", defender os chamados golpistas e criticar ministros do STF, segundo relatos publicados anteriormente pela mesma coluna. O presidente da Fundação Renascer apresenta um programa em uma emissora de rádio que, segundo o blog, também recebe publicidade governamental em sua programação.
O cenário é delicado para Mitidieri. A dúvida que circula entre aliados do governador é se ele vai tomar as rédeas do governo ou deixar uma situação de conflito interno se instalar, especialmente com a proximidade das eleições de 2026. A Fundação Renascer é vinculada à Secretaria de Estado da Assistência Social, Inclusão e Cidadania, comandada pela primeira-dama Érica Mitidieri.
O senador Laércio Oliveira (PP) aparece no mesmo contexto. O governador nomeou Fabiano Oliveira como presidente da Emsetur por indicação do senador Laércio, aquele que virou chacota da imprensa nacional quando ficou segurando Bolsonaro pela barriga em cima de uma caminhonete. A cena, registrada em abril de 2024, rendeu projeção nacional ao senador sergipano.
Laércio Oliveira, do Partido Progressistas (PP), foi eleito senador por Sergipe conquistando mais de 310 mil eleitores, o equivalente a 28,57% dos votos válidos. Com mandato até 2031, ele articula recursos federais junto ao governador Mitidieri e a outros parlamentares para os 75 municípios sergipanos, em estratégia que mira as eleições de 2026.
A situação expõe uma prática comum na política brasileira: a aliança pragmática que sobrepõe interesses eleitorais e cargos a qualquer coerência ideológica. De um lado, bolsonaristas que precisam do governo estadual para manter estrutura política. Do outro, um governador que precisa de votos e não quer abrir flancos antes do pleito de 2026, mesmo que isso signifique conviver com auxiliares que fazem oposição ao seu próprio aliado nacional.
O capitão Samuel está na lista dos que deverão se afastar de atividades administrativas para se dedicar ao pleito eleitoral de 2026, segundo informações divulgadas pelo portal Click Sergipe. Até lá, a contradição segue em plena atividade — e sem nenhum sinal de que o governador pretende resolvê-la.







