Quando uma tonelada de fosfato sai do solo baiano e vira fertilizante dentro do próprio estado antes de chegar ao campo, a riqueza gerada fica aqui. Essa é a lógica por trás do modelo de negócio que a Galvani pratica há mais de duas décadas na Bahia — e que agora a empresa quer ampliar com um novo projeto em Irecê.
A Galvani se posiciona como único produtor de fertilizantes fosfatados totalmente verticalizado no Norte-Nordeste do Brasil. Na prática, isso significa que a cadeia toda — extração do minério, beneficiamento, produção de fertilizantes e distribuição — acontece sob o mesmo guarda-chuva empresarial, dentro da região.
A unidade de mineração da empresa se instalou no povoado de Angico dos Dias, em Campo Alegre de Lourdes, em 2002, e começou a funcionar efetivamente em 2005, com o objetivo de extrair fosfato para ser transformado em fertilizante em Luís Eduardo Magalhães. De lá para cá, a empresa acumula mais de 20 anos de história em Angico dos Dias, numa região com enorme potencial para o desenvolvimento da mineração de fosfato.
O diretor-presidente da Galvani, Marcelo Silvestre, defende que o beneficiamento local é o que distingue esse modelo de uma simples atividade extrativa. Segundo ele, quando o minério é processado dentro do estado, a riqueza gerada pela atividade mineral permanece na Bahia, estimulando a industrialização, a geração de conhecimento técnico e o fortalecimento da cadeia produtiva.
O próximo passo nessa direção é o Projeto Minério Primário de Irecê. A Galvani está retomando as operações na região em parceria com a Companhia Baiana de Pesquisa Mineral (CBPM) e com o apoio da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). A nova unidade terá capacidade de produção anual de 350 mil toneladas de concentrado fosfático, direcionados para o complexo industrial de Luís Eduardo Magalhães. A planta também produzirá 600 mil toneladas de calcário agrícola para atendimento do mercado do Matopiba.
O projeto em Irecê conta com um financiamento de R$ 344 milhões da Finep, graças à inovação na tecnologia de concentração a seco, que elimina a necessidade de barragens de rejeitos. O processamento a seco inova pela adoção inédita de calcinação de fosfato na área de fertilizantes, além do baixo consumo de água com 100% de recirculação no processo, sem lançamento de efluentes industriais.
Segundo a Galvani, as obras de expansão da Unidade de Mineração em Irecê estão nos estágios finais da engenharia, na fase de aquisição de equipamentos e início da construção civil, com previsão de início das atividades entre março e abril de 2026.
O Projeto Irecê irá gerar aproximadamente 900 empregos diretos e indiretos durante a fase de construção e operação da planta, impulsionando o desenvolvimento econômico na região. Além dos postos de trabalho, foi assinado um Acordo de Cooperação Técnica entre a CBPM e a Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional (CAR/SDR) para a distribuição à agricultura familiar da região de 10 mil toneladas de calcário que serão doadas pela Galvani anualmente.
O impacto do modelo verticalizado vai além das plantas industriais. Os investimentos em infraestrutura nas comunidades do entorno fazem parte das contrapartidas da parceria entre a CBPM e a Galvani, no contexto do projeto de mineração de fosfato na região. Em dezembro de 2025, por exemplo, Campo Alegre de Lourdes recebeu uma ordem de serviço de R$ 3 milhões para obras de acesso ligando Angico dos Dias a comunidades vizinhas.
No horizonte mais amplo, a ampliação faz parte do plano da Galvani de duplicar sua capacidade de operação industrial na Bahia, com investimentos totais previstos de R$ 3 bilhões até 2027 na região do Matopiba. O projeto visa reduzir em 25% a dependência de fertilizantes importados no Norte e Nordeste. Para especialistas ouvidos sobre o setor mineral baiano, esse caminho — da extração ao produto final dentro do próprio estado — é justamente o que transforma minério em desenvolvimento regional de verdade.







