Paulo Afonso · BA
Última hora
PI 37033
Polícia

OAB Alagoas denuncia: dependência química em casa levou filhos a matar os próprios pais em 2025

Presidente da comissão de direitos dos idosos da OAB/AL revela que abuso financeiro dentro da família antecede os casos mais graves — e que o interior alagoano concentra quase 80% das mortes.

Redação ChicoSabeTudoRedação · Polícia
10 de junho, 2026 · 06:40 3 min de leitura
Portal ChicoSabeTudo
Portal ChicoSabeTudo

O lar, que deveria ser o espaço de maior proteção para os idosos, tem se revelado também um dos lugares mais perigosos. Essa é a conclusão que emerge do relatório anual da Comissão Especial da Pessoa Idosa da OAB Alagoas, divulgado nesta terça-feira (9), no âmbito das ações do Junho Violeta.

Publicidade

O advogado Gilberto Irineu, presidente da comissão, foi direto ao apontar o que os números escondem: casos em que filhos e netos envolvidos com drogas e álcool chegaram a assassinar os próprios pais e avós. Segundo ele, esse ciclo costuma começar de forma silenciosa — com o desvio de cartões magnéticos e a apropriação indevida de benefícios previdenciários pelos próprios familiares.

Nos últimos cinco anos, foram registrados 167 casos de homicídios contra a população idosa em Alagoas, e 2025 atingiu o maior número de crimes desde que o relatório começou a ser produzido, em 2021. De acordo com o relatório, foram contabilizados 37 assassinatos no último ano, com quase 80% dos casos ocorrendo em municípios do interior alagoano.

Dos 37 homicídios registrados em 2025, apenas oito ocorreram em Maceió, enquanto os demais (29) foram registrados em cidades do interior. Entre os municípios com maior número de casos estão São Miguel dos Campos, com quatro ocorrências, e São Sebastião, com três. Para Irineu, a distância geográfica agrava a vulnerabilidade: sítios e povoados sem policiamento ostensivo e sem rede de assistência social deixam as vítimas sem qualquer canal de socorro.

Publicidade

Entre as vítimas, 34 eram homens e três eram mulheres. A maioria dos homicídios foi praticada com armas de fogo, em 21 casos. Outros 14 crimes foram cometidos com armas brancas ou instrumentos contundentes, como facas, facões e enxadas. Houve ainda um caso de espancamento e outro de asfixia.

O relatório também identificou uma dinâmica nova e preocupante nas regiões interioranas: grupos de três ou quatro jovens que invadem residências para executar idosos. Além dos latrocínios e conflitos históricos por propriedades, essa modalidade passou a integrar o mapa da violência letal contra esse público em Alagoas, segundo a OAB.

A ausência de Conselhos Municipais dos Direitos da Pessoa Idosa em mais da metade dos municípios alagoanos aparece como um nó estrutural no diagnóstico da comissão. Sem esses conselhos, as cidades ficam impedidas de acessar verbas federais e estaduais para programas de visitas domiciliares e atendimento psicossocial — exatamente os mecanismos que poderiam identificar abusos antes que evoluam para homicídio.

O cenário de Alagoas reflete uma tendência nacional. A violência contra pessoas idosas no Brasil registrou crescimento alarmante em 2025: entre janeiro e abril, foram registradas 65.488 denúncias de violações de direitos humanos contra idosos, aumento de 38% em relação ao mesmo período de 2023. Os dados mostram que os principais tipos de violência continuam sendo a psicológica e a patrimonial, e entre os agressores mais comuns estão familiares próximos como filhos e netos.

Como desdobramento do relatório, a OAB Alagoas está se movimentando junto ao Ministério Público e à Secretaria de Defesa Social para averiguar todos os assassinatos, verificar se houve instauração de inquérito policial e se os casos foram encaminhados à Justiça. A entidade expediu ofício direto ao Procurador-Geral de Justiça do Ministério Público e à Promotoria Criminal para que acompanhem cada caso.

Gilberto Irineu apelou ainda para que a população denuncie casos de negligência, espancamento, cárcere privado ou abandono de idosos, especialmente nas periferias e nos povoados. O canal nacional para denúncias é o Disque 100, disponível 24 horas, incluindo fins de semana e feriados.

Leia também