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De cortiços históricos a corredores econômicos: o avanço das cenas de uso de crack pelas avenidas de Salvador

Pontos de uso de drogas que por décadas ficaram restritos ao Centro Histórico agora se espalham pela ACM, Vasco da Gama e Tancredo Neves, expondo falhas estruturais de saúde e assistência social.

Redação ChicoSabeTudoRedação · Polícia
10 de junho, 2026 · 06:38 3 min de leitura
Portal ChicoSabeTudo
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Quem circula pelas avenidas ACM, Vasco da Gama e Tancredo Neves, em Salvador, já não precisa ir ao Centro Histórico para se deparar com barracos improvisados sob viadutos, acúmulo de pertences e cenas abertas de uso de drogas. O que por décadas ficou concentrado em regiões como Pelourinho, Comércio, Nazaré e Baixa dos Sapateiros agora ocupa também alguns dos principais corredores econômicos e de mobilidade da capital baiana.

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A concentração de moradores de rua na Avenida ACM gera insegurança e risco do surgimento de novas cracolândias, e o cenário pode ser observado nas imediações do BRT Cidadela, às margens da própria avenida. À noite, o problema se intensifica: o número de usuários chega a ultrapassar 30 pessoas em alguns pontos.

A situação se repete em outras regiões movimentadas da cidade, como o Largo Dois Leões, na Avenida Contorno, em trechos da Praça Dois de Julho e no Campo Grande, além de diversas outras áreas com grande movimentação de pessoas. A mudança não é apenas de endereço — ela expõe uma transformação profunda no mapa da exclusão urbana soteropolitana.

Salvador é a quinta capital com o maior número de pessoas em situação de rua no Brasil. Ao todo, mais de 10 mil soteropolitanos estão nesse estado, de acordo com dados de uma pesquisa divulgada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Esse contingente alimenta diretamente a presença cada vez maior de cenas de uso de drogas em espaços públicos de alto fluxo.

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Pesquisadores da UFBA e do Instituto de Saúde Coletiva identificaram o perfil dessa população. A maioria se identifica como homem cis, de raça/cor autodeclarada preta, de orientação heterossexual, natural de Salvador e com escolaridade até o ensino fundamental incompleto. Entre as substâncias mais utilizadas ao menos uma vez na vida estão bebidas alcoólicas (81%), derivados do tabaco (75,2%), maconha (60,1%) e cocaína/crack (55,2%).

O crack chegou ao Brasil de forma relativamente silenciosa. Segundo informações divulgadas pelo jornal A Tarde, a droga surgiu nos Estados Unidos nos anos 1980 e os primeiros registros científicos de seu consumo no país foram publicados em 1996, embora pesquisas indiquem que a substância já circulava em São Paulo desde pelo menos 1991. Em Salvador, pesquisadores da UFBA e do Centro de Estudos e Terapia do Abuso de Drogas (Cetad/UFBA) documentaram o surgimento de uma epidemia local a partir de 1996, quando a droga atingiu especialmente usuários de drogas injetáveis em situação de pobreza.

O Relatório Brasileiro sobre Drogas, de 2009, verificou a alta prevalência do uso de crack em cinco regiões metropolitanas: Brasília, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Salvador e Vitória. O dado colocava a capital baiana entre os centros urbanos com o problema mais enraizado, muito antes de o fenômeno ganhar a visibilidade atual nas grandes avenidas.

O perfil do usuário de crack no Brasil tem contornos bem definidos pela literatura científica. A população de usuários de crack brasileira é composta predominantemente por homens adultos jovens, solteiros, de baixa escolaridade, desempregados e de baixa renda. Dados nacionais apontam que 35,5% da população em situação de rua do país referem o uso abusivo de álcool ou de outras drogas como a principal motivação para passar a viver nas ruas.

O fenômeno não é exclusivo de Salvador. Em São Paulo, mesmo com a redução do "fluxo" histórico, houve crescimento de aglomerações em outras regiões da capital paulista, como a Avenida Jornalista Roberto Marinho, na Zona Sul, e a Rua Doutor Avelino Chaves, na Vila Leopoldina. O padrão se repete: quando a pressão policial ou urbana desloca usuários de um ponto, eles se redistribuem por outros territórios da cidade.

A falta de leitos na rede pública, a escassez de recursos humanos e órgãos especializados e a discussão tardia sobre formas de internação colaboram para a rápida disseminação do problema pelo país. Em Salvador, especialistas apontam que o enfrentamento exige mais do que policiamento: passa por moradia, geração de renda e saúde mental. Na avaliação de pesquisadores da área, faltam políticas públicas direcionadas a atender esse grupo social. "Não adianta somente tratar o vício. Pois, além dos serviços de saúde, precisa haver formas de gerar renda e reinserir essas pessoas no âmbito social."

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