Uma clínica de reabilitação na zona rural de Candeias, na Região Metropolitana de Salvador, se revelou um cenário de horrores após a Operação Terra Santa, deflagrada pela Polícia Civil da Bahia na manhã desta quarta-feira (22). A ação revelou 39 pacientes encontrados em situação de cárcere privado. O estabelecimento, identificado como Terra Santa Videira, é investigado por suspeitas de tortura, maus-tratos e envolvimento em duas mortes ocorridas desde o fim de 2025.
O gerente da clínica foi preso durante a operação. Apontado como braço direito do proprietário da instituição, ele foi encontrado dormindo nas dependências da unidade e autuado em flagrante pelos crimes de tortura e maus-tratos. A operação foi deflagrada por equipes da 20ª Delegacia Territorial (DT/Candeias), vinculada ao Departamento de Polícia Metropolitana (Depom).
As investigações tiveram início em 31 de dezembro de 2025, após o interno Geovane Santana Lopes ser encontrado com graves queimaduras dentro da clínica. Na época, a instituição informou que ele havia causado as próprias queimaduras, versão que foi contestada pela família. Geovane permaneceu internado por mais de quatro meses, mas não resistiu aos ferimentos e morreu em 4 de maio de 2026.
Apenas cinco dias após a morte de Geovane, Iago Marques Formiga, que trabalhava como monitor da clínica após concluir o próprio tratamento no local, desapareceu. O corpo de Iago, de 33 anos, foi encontrado carbonizado às margens da BA-530, em Camaçari. Até o momento, a Polícia Civil não confirmou se as duas mortes possuem ligação direta.
Segundo relatos de ex-internos, pacientes eram submetidos a sessões de tortura, incluindo choques elétricos e castigos em que ficavam pendurados de cabeça para baixo, além de serem dopados, ameaçados e obrigados a realizar trabalhos forçados. Segundo informações divulgadas pela fonte original, havia um espaço interno chamado de "quartinho do amor" onde as agressões ocorriam, e uma área nos fundos da clínica, próxima a um lago, onde teriam acontecido sessões de afogamento.
De acordo com as informações levantadas durante a investigação, familiares dos pacientes pagavam cerca de R$ 1,2 mil por mês pelo tratamento oferecido pela instituição. Durante os mandados de busca, foram apreendidos notebooks, aparelhos celulares, documentos e medicamentos controlados nas residências do proprietário da clínica e do gerente.
Os 39 pacientes resgatados foram encaminhados para exames de corpo de delito realizados pelo Departamento de Polícia Técnica (DPT), cujos laudos deverão subsidiar as investigações e ajudar na comprovação dos crimes de tortura, maus-tratos e demais infrações identificadas.
O delegado responsável pelas investigações, Marcos Laranjeira, não poupou palavras ao detalhar o alcance das apurações. "As investigações já apontam indícios de participação do proprietário nos crimes de maus-tratos e tortura praticados contra os internos. Também apuramos denúncias de que a clínica possa ter sido utilizada para a execução de vítimas e investigamos a possível participação dos envolvidos em uma organização criminosa", afirmou.
Além dos casos de Iago e Geovane, a Polícia Civil também apura denúncias de ameaça, lesão corporal, cárcere privado, maus-tratos e tortura supostamente praticados contra pacientes da instituição. As investigações prosseguem para esclarecer todas as circunstâncias dos fatos, identificar outros possíveis envolvidos e verificar a eventual relação da clínica com outros crimes praticados na região.







