Investigações recentes revelaram um dado preocupante no mercado clandestino de medicamentos para emagrecer no Brasil: entre as canetas contrabandeadas do Paraguai, há produtos vendidos como retatrutida — uma substância que ainda não foi aprovada por nenhuma agência reguladora do mundo e segue em fase de testes clínicos.
A retatrutida é uma molécula que ainda está na fase três de estudos clínicos, a etapa final de testes em humanos, e o medicamento sequer foi lançado pelo laboratório responsável por seu desenvolvimento. Apesar disso, reportagem do Fantástico encontrou seis marcas da suposta substância sendo vendidas em farmácias paraguaias, com versões em caneta, ampola e pó, em diferentes preços e com origens declaradas como Paraguai, China, Alemanha e Reino Unido.
A retatrutida atua como triplo agonista hormonal, sendo análoga ao GLP-1, ao GIP e ao glucagon — hormônios ligados ao controle da saciedade e do metabolismo. Essa ação combinada torna o composto potencialmente mais eficaz do que medicamentos já conhecidos, como a tirzepatida e a semaglutida, que atuam em menos vias hormonais. Em resultado preliminar de fase três, divulgado em dezembro de 2025 pela farmacêutica Eli Lilly, a perda de peso chegou a 28,7% em 68 semanas. São números que viralizaram e alimentaram a demanda — mesmo com o produto sem aval científico completo.
Os testes em seres humanos ainda não foram concluídos e a substância não possui aprovação de órgãos regulatórios, como a Anvisa ou o FDA nos Estados Unidos, para comercialização ou uso fora de protocolos de pesquisa. No Brasil, a retatrutida foi proibida pela Anvisa em janeiro de 2026 por estar em fase de testes clínicos sem aprovação regulatória.
A Anvisa informou que esses produtos são de origem desconhecida e sem qualquer garantia sobre conteúdo ou qualidade. O FDA também reforçou que a retatrutida não compõe nenhum medicamento aprovado e não foi considerada segura e eficaz para qualquer condição. Segundo especialistas, a pessoa pode estar aplicando dose errada, produto contaminado, substância trocada, produto não estéril ou até algo que nem seja retatrutida.
O risco não é só com a retatrutida. Em uma das embalagens analisadas pela reportagem, o código de verificação de autenticidade do produto não foi reconhecido pelo próprio site informado na embalagem. No site do laboratório citado, a informação é de que as substâncias são produzidas apenas para pesquisa. A Receita Federal destacou que os produtos eram transportados de forma inadequada, expostos ao calor do motor — o que compromete a estabilidade da tirzepatida, que deve ser mantida refrigerada entre 2°C e 8°C.
O contrabando dessas canetas explodiu em 2026. Segundo a Receita Federal, o contrabando de medicamentos para emagrecimento cresceu de forma expressiva, com 115.647 canetas e ampolas apreendidas até agora — um aumento de 1.446% em relação às 7.479 unidades de 2025. As canetas produzidas no Paraguai tornaram-se um dos principais produtos contrabandeados para o Brasil e já ocupam o segundo lugar entre as apreensões da Receita Federal na Alfândega de Foz do Iguaçu, atrás apenas dos smartphones.
O preço explica boa parte da procura: o tratamento mensal de Mounjaro de 15 mg custa a partir de R$ 3.499 no Brasil. Para quem compra nas farmácias de Ciudad del Este, no entanto, a versão paraguaia custa em média R$ 430, sem exigência de receita médica.
As canetas ilegais não chegam ao Brasil apenas pela fronteira com o Paraguai. Em três meses, foi apreendida uma tonelada de produtos emagrecedores ilegais em remessas vindas da China ao Aeroporto de Viracopos, em Campinas. Fábricas clandestinas também foram fechadas no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Maceió.
O aumento das apreensões acompanha uma alta nas notificações de efeitos adversos à Anvisa, que passaram de 257 em 2023 para 449 em 2024 e chegaram a 1.122 em 2025 — sinal de que cada vez mais brasileiros estão usando esses produtos sem nenhuma garantia de segurança. A orientação das autoridades é que consumidores adquiram medicamentos apenas em farmácias autorizadas, sempre com prescrição e acompanhamento médico, evitando produtos vendidos por terceiros ou em canais irregulares.






