A terapeuta ocupacional Mara Cristina Ribeiro, doutora pela USP e pró-reitora da Uncisal, lançou um alerta contundente sobre a situação da saúde mental em Alagoas: segundo ela, os muros de pedra dos antigos sanatórios foram derrubados, mas no lugar surgiram barreiras burocráticas, financeiras e geográficas igualmente violentas, especialmente no interior do estado.
O desabafo foi dado ao portal CadaMinuto no rastro das mobilizações do dia 18 de maio, o Dia Nacional da Luta Antimanicomial. Em 2026, a data ganhou peso extra: são 25 anos desde a sanção da Lei 10.216/2001, conhecida como Lei da Reforma Psiquiátrica, que priorizou o cuidado em liberdade em detrimento do modelo asilar-manicomial.
Para a pesquisadora, autora do estudo mais robusto sobre a trajetória da reforma psiquiátrica alagoana, o problema central é a desigualdade regional na oferta de serviços. Enquanto Maceió e Arapiraca concentram os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) mais estruturados, os pequenos municípios do interior vivem o que ela chama de "verdadeiro apagão estrutural". Sem equipes multiprofissionais fixadas no território, o peso do cuidado cai inteiramente sobre as famílias. "O resultado é cruel: por exaustão e falta de alternativa pública, as pessoas voltam a clamar pelo isolamento e pela internação de longo prazo", afirmou Mara Cristina, segundo o CadaMinuto.
O retrato traçado pela especialista encontra respaldo em levantamentos acadêmicos. Pelo menos sete estados brasileiros não contam com CAPS III — modalidade que oferece cuidado contínuo 24 horas —, e Alagoas está entre eles, ao lado de Acre, Amapá, Distrito Federal, Mato Grosso, Rondônia e Tocantins. Apesar dos avanços da reforma, persistem desafios relacionados ao financiamento, à gestão e à desigualdade regional de serviços, e o fortalecimento dos CAPS é apontado como essencial para a continuidade da política de saúde mental no país.
Outro ponto crítico levantado por Mara Cristina é a resistência dos hospitais gerais alagoanos em abrir leitos para saúde mental. A desinstitucionalização prevista na Reforma Psiquiátrica preconiza justamente a existência de leitos de saúde mental em hospitais gerais, como alternativa à transferência do paciente em crise para instituições segregadoras. Segundo a pesquisadora, essa porta permanece fechada em Alagoas, reativando na prática a lógica do isolamento que a lei tentou enterrar.
No plano nacional, em 2001 o Brasil contava com 295 CAPS; em 2024, esse número chegou a 3.019 unidades. No mesmo período, os leitos em hospitais psiquiátricos caíram de cerca de 50 mil para menos de 13 mil. O avanço é real, mas os dados indicam perda de capacidade real de investimento e déficit de atendimento em parte significativa do território nacional.
Para Mara Cristina, o preconceito social agrava ainda mais o cenário. Ela descreve a intolerância cotidiana como uma "camisa de força invisível" que impede a plena reinserção de quem vive com transtorno mental, tanto nas ruas de Maceió quanto nas cidades do interior. Embora o país tenha avançado na desinstitucionalização, a garantia de um cuidado digno e em liberdade permanece como o principal desafio para pacientes e profissionais do setor, especialmente diante de novas barreiras políticas e orçamentárias.
A pró-reitora da Uncisal cobra que a Luta Antimanicomial deixe de ser tratada como efeméride de calendário. Para ela, o nível civilizatório de Alagoas se mede pela forma como o estado cuida dos seus sujeitos mais vulnerabilizados — e, nesse aspecto, a dívida ainda está longe de ser quitada. "Não basta oferecer atendimento clínico de vez em quando; é necessário criar espaços de pertencimento nas ruas, nas praças, no trabalho. Cuidar em liberdade é um compromisso ético inegociável", concluiu a especialista, segundo o CadaMinuto.







