Paulo Afonso · BA
Última hora
PMPA - PI 5525
Saúde

Entre a esperança e a ciência: o médico que refletiu sobre autonomia e rigor após marco da medicina em AL

Anestesiologista que atuou na primeira infusão de Polilaminina em Alagoas alerta: entusiasmo não substitui evidência, mas ignorar o avanço também seria um erro.

Redação ChicoSabeTudoRedação · Saúde
05 de junho, 2026 · 06:31 3 min de leitura
Portal ChicoSabeTudo
Portal ChicoSabeTudo

No último domingo (31 de maio), Alagoas entrou para a história da medicina brasileira. Natalício Jordan Correia de Barros, jovem que ficou paraplégico após um grave acidente de moto em 14 de março, tornou-se o primeiro paciente alagoano a receber a infusão de Polilaminina, substância experimental desenvolvida por pesquisadores da UFRJ e produzida pelo laboratório Cristália.

Publicidade

Mas o que ficou evidente nos bastidores do procedimento não foi apenas o marco científico. Foi o peso humano e burocrático que antecedeu tudo. Para a família de Jordan, a aprovação do chamado "uso compassivo" — mecanismo que permite acesso a medicamentos ainda experimentais quando não há outra alternativa terapêutica — foi o resultado de uma maratona que durou mais de dois meses, segundo informações divulgadas pelo portal Cada Minuto.

"Foi um caminho bem difícil e que por momentos imaginávamos que não iríamos conseguir a tempo", disse Vanessa, esposa de Natalício. Ela atribui o avanço do processo ao suporte da médica responsável pelo caso dentro do estudo clínico, a Dra. Morghana Ferreira. Segundo Vanessa, quando a aprovação veio, "sorrimos e choramos muito juntos".

Para o anestesiologista Dr. Pedro Ferro, que atuou diretamente no procedimento, a execução exigiu precisão milimétrica. O protocolo envolve uma dose única aplicada diretamente na área da lesão medular durante um procedimento cirúrgico. Qualquer movimentação do paciente durante a infusão poderia comprometer tudo. O papel da anestesia, portanto, foi decisivo: garantir imobilidade, controle da dor e estabilidade clínica do início ao fim.

Publicidade

Foi a partir desse momento que o médico propôs uma reflexão que vai além da sala de cirurgia. A comunidade científica reforça a necessidade de cautela, destacando que avanços promissores devem passar por rigor metodológico antes da adoção ampla. Para Ferro, o entusiasmo é motor da pesquisa, mas sem rigor científico ele não se transforma em conhecimento sólido — uma tensão que se intensifica na era das redes sociais e das buscas por curas rápidas.

O próprio Dr. Ferro foi categórico: a Polilaminina não é um tratamento aprovado pela Anvisa e não tem eficácia de cura comprovada. O caso de Jordan integra um estudo clínico em andamento. Atualmente, a pesquisa está na Fase 1, que visa demonstrar a segurança do medicamento. Os resultados preliminares ainda não passaram por revisão por pares, etapa considerada fundamental para validar achados na ciência.

No Brasil, o movimento em torno da Polilaminina vem crescendo. Até o momento, pelo menos 16 pacientes brasileiros obtiveram na Justiça o direito de receber a aplicação experimental, e ao menos cinco apresentaram recuperação parcial dos movimentos. Casos semelhantes ao de Jordan foram registrados recentemente no Ceará e em Santa Catarina, também via uso compassivo autorizado pela Anvisa.

O aumento de ações judiciais solicitando acesso compassivo pode impactar o recrutamento para ensaios clínicos controlados, e pesquisadores alertam que isso pode atrasar a produção de evidências robustas. É justamente esse o dilema que o Dr. Pedro Ferro coloca na mesa: como equilibrar a urgência de quem perdeu a mobilidade — e muitas vezes a esperança — com o tempo que a ciência exige para confirmar o que ainda é promessa?

Para Jordan e Vanessa, os próximos passos serão de paciência e reabilitação. A eficácia da Polilaminina depende de um processo de reabilitação com fisioterapia e demais profissionais multidisciplinares. A corrente de solidariedade que mobilizou Alagoas em março — com doações de sangue, vaquinhas e orações — chegou a um patamar que a família jamais imaginara. "É, de fato, uma dose de esperança", disse Vanessa, segundo a reportagem original. Para o anestesiologista, o grande feito é mostrar que Alagoas tem maturidade técnica e profissionais capacitados para deixar de ser espectadora e se tornar protagonista na produção de conhecimento científico.

Leia também