Pesquisadores do Instituto Nacional de Câncer (INCA), em parceria com a Fiocruz e a Universidade de Brasília (UnB), desenvolveram dois novos modelos de terapia CAR-T voltados ao combate de tumores no sangue. A tecnologia usa um sistema sem vetor viral, o que pode reduzir o custo de produção e abrir caminho para a oferta do tratamento pelo SUS. O estudo foi publicado no periódico científico Frontiers in Immunology.
O trabalho mostra a validação em laboratório de duas versões modificadas da terapia, chamadas de H1 e H2, direcionadas a neoplasias hematológicas, como a leucemia linfoblástica aguda de células B.
A CAR-T é apontada como o quinto pilar do tratamento contra o câncer. A técnica retira células de defesa do próprio paciente e as reprograma geneticamente para identificar e atacar o tumor. No modelo tradicional, a proteína responsável por esse reconhecimento vem de anticorpo de camundongo. Na versão brasileira, essa proteína foi modificada para se assemelhar a uma proteína humana, o que reduz o risco de rejeição pelo organismo do paciente.
Nos dois modelos criados no país, o alvo é o CD19, uma proteína presente na superfície de linfócitos B e de outras células da mesma linhagem. Em testes de laboratório, as versões H1 e H2 eliminaram células cancerosas com eficiência semelhante à do tratamento original, inclusive quando a quantidade de CD19 na superfície do tumor era menor. Também houve formação de células de memória, importantes para evitar o retorno da doença.
Em experimentos com camundongos, a versão H1 controlou o câncer de forma duradoura e manteve a sobrevida dos animais em nível parecido ao da terapia padrão. Já a versão H2 mostrou ligação mais fraca à proteína-alvo e perda progressiva de força ao longo do tempo, com sinais de esgotamento das células de defesa. Por isso, os pesquisadores escolheram a versão H1 para seguir para a próxima etapa: os testes em humanos.
Estudos anteriores, publicados na revista Blood Advances, mostram o impacto da CAR-T em pacientes com linfoma difuso de grandes células B que não respondiam a outros tratamentos. Antes da terapia, esse grupo tinha taxa de resposta de 26% e sobrevida mediana de seis meses. Após a CAR-T, a sobrevida global em três anos saltou de 10% para 59%, e a sobrevida livre de progressão da doença passou de 6% para 48%, sempre em comparação com grupos que não tiveram acesso à terapia.
Hoje, no mercado particular brasileiro, o tratamento CAR-T custa entre R$ 2 milhões e R$ 2,7 milhões por paciente. A proposta do INCA, da Fiocruz e da UnB é justamente diminuir esse valor, usando um processo de produção nacional e mais simples, sem depender de vírus para modificar as células. Segundo os pesquisadores, isso pode tornar a fabricação mais escalável e barata.
A pesquisa recebeu apoio financeiro do Decit-CNPq, da FAPDF, da Capes, da Faperj e do Programa Inova Fiocruz.







