Pesquisadores do Instituto Nacional de Câncer (INCA), em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e a Universidade de Brasília (UnB), desenvolveram dois novos produtos de terapia CAR-T voltados ao combate de cânceres no sangue. O trabalho foi publicado no periódico científico Frontiers in Immunology.
A pesquisa detalha a validação em laboratório de versões modificadas da terapia, pensadas para tratar neoplasias hematológicas, como a leucemia linfoblástica aguda de células B. A proposta é reduzir os custos de produção e tornar viável a oferta do tratamento pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
A CAR-T é apontada como o quinto pilar do tratamento contra o câncer. A técnica usa células de defesa do próprio paciente, que passam por modificação genética para conseguir identificar e atacar o tumor.
Antes da chegada dessa terapia, pacientes com linfoma difuso de grandes células B refratário — tipo grave e resistente a outros tratamentos — tinham taxa de resposta global de apenas 26%, com 7% de remissão completa e sobrevida mediana de seis meses. Um estudo publicado na revista Blood Advances mostrou avanço expressivo depois da CAR-T: a sobrevida em três anos saltou de 10% para 59%, na comparação com um grupo de pacientes tratados antes da nova técnica existir. A sobrevida sem progressão da doença também subiu, de 6% para 48%.
Na versão tradicional do tratamento, a molécula responsável por reconhecer as células doentes vem de anticorpo de camundongo. Os cientistas brasileiros alteraram essa estrutura para deixá-la parecida com uma proteína humana, o que ajuda a evitar rejeição pelo organismo do paciente. O alvo da terapia é o CD19, proteína encontrada na superfície dos linfócitos B, entre outras células do mesmo grupo.
As duas versões criadas no país foram chamadas de H1 e H2. Em testes de laboratório, ambas eliminaram células cancerosas com a mesma eficiência da terapia original, inclusive quando o CD19 aparecia em quantidade menor na superfície do tumor. Também houve formação de células de memória, importantes para evitar retorno da doença.
Em experimentos com camundongos, a versão H1 manteve controle duradouro sobre o câncer e garantiu sobrevida dos animais em nível equivalente ao da terapia já usada atualmente. Já a versão H2 mostrou ligação mais fraca com o alvo CD19 e perda progressiva de força ao longo do tempo, com sinais de desgaste das células de defesa utilizadas no tratamento.
Diante desses resultados, os pesquisadores indicaram a versão H1 como a escolhida para seguir para testes em humanos.
Atualmente, no mercado particular brasileiro, o tratamento com CAR-T custa entre R$ 2 milhões e R$ 2,7 milhões por paciente. A equipe responsável pelo estudo aposta que o uso de um método de produção sem vetor viral, aliado à fabricação nacional, pode abrir caminho para um processo mais barato e possível de ser ampliado em escala.
O projeto teve apoio financeiro do Decit-CNPq, da FAPDF, da Capes, da Faperj e do Programa Inova Fiocruz.







