Última hora
PMPA - 5736
Política

Quase 35 anos depois, Petrobras segue sem pagar dívida por desastre de petróleo na Bahia

Vazamento de 48 mil litros do navio Amapá na Baía de Todos-os-Santos em 1992 gerou multa de R$ 300 milhões do Ibama — e a conta ainda não foi paga.

Redação ChicoSabeTudo
05 de julho, 2026 · 07:07 3 min de leitura
Vista aérea da Baía de Todos-os-Santos, na Bahia, palco do vazamento de petróleo de 1992
Vista aérea da Baía de Todos-os-Santos, na Bahia, palco do vazamento de petróleo de 1992

Em 17 de abril de 1992, 48 mil litros de petróleo bruto escorreram pelo navio Amapá durante uma operação de transferência de óleo entre o Terminal Aquaviário de Madre de Deus e a Refinaria de Mataripe, em São Francisco do Conde — ambos na Região Metropolitana de Salvador. O acidente contaminou manguezais, devastou a fauna local e empurrou comunidades de pescadores e marisqueiras para uma crise socioeconômica sem prazo para acabar. Mais de três décadas depois, a conta ainda não foi quitada.

Publicidade

O navio Amapá era operado pela Frota Nacional de Petroleiros (Fronape), braço de transporte marítimo da Petrobras na época. A frota foi extinta em 1998, seis anos após o incidente, quando a estatal criou a Transpetro — empresa que hoje cuida do transporte, armazenamento, oleodutos, gasodutos e terminais da companhia. A ligação da Petrobras com o desastre, portanto, é direta e documentada.

Segundo informações divulgadas pelo portal BNews, o Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Bahia (Inema) — que em 1992 ainda se chamava Centro de Recursos Ambientais (CRA) — abriu uma ação de execução fiscal contra a Petrobras em setembro de 1993. A penalidade prevê, entre outras medidas, a penhora de 1 milhão de litros de gasolina. Documentos apontam que o valor atualizado da multa do Inema ultrapassou R$ 3,8 milhões em abril de 2024. Como a sanção foi aplicada em dezembro de 1992, o débito foi originalmente calculado em Cruzeiro Real (CR$) — moeda que circulava antes do Plano Real — e vem sendo convertido e corrigido desde então.

Mas a multa do Inema não é a mais pesada. O Ibama, órgão federal, aplicou uma punição de R$ 300 milhões à estatal — a maior já registrada na história do instituto. A sanção reflete a gravidade do derramamento e os prejuízos de longo prazo causados ao ecossistema e às populações que dependem da pesca na baía.

Publicidade

A Justiça baiana avançou recentemente no processo. O Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA) decidiu, em março de 2026, que a multa do Inema precisa ser recalculada — o que pode elevar ainda mais o valor do débito. Além disso, a Petrobras perdeu o prazo de defesa e não pode mais contestar a dívida. A empresa foi intimada a aguardar que o Inema apresente uma planilha de débito atualizada e detalhe os termos da penhora do combustível.

O desastre de 1992 coincidiu com um momento de alta visibilidade ambiental no Brasil: naquele mesmo ano, o Rio de Janeiro sediou a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Eco-92. O Greenpeace protestou contra o vazamento, e o caso chegou às manchetes de grandes jornais do país. Ainda assim, a reparação financeira nunca se concretizou.

O padrão não é exclusivo desse caso. Multas ambientais no Brasil são frequentemente questionadas na Justiça e ficam anos sem ser pagas — e a Petrobras figura como exemplo recorrente desse problema, segundo análises do setor ambiental. O caso da Baía de Todos-os-Santos ilustra com clareza esse ciclo: o dano ambiental foi real, as comunidades pesqueiras sofreram as consequências, os órgãos ambientais aplicaram as penalidades — e a conta segue aberta quase 35 anos depois.

Leia também