O Nordeste brasileiro chegou a Londres com cifras ambiciosas e uma estratégia concreta. Na última segunda-feira (22), o Fórum Powershoring realizou um roadshow para investidores e instituições de pesquisa europeus durante a London Climate Action Week, apresentando as oportunidades do 5º leilão EcoInvest — a principal aposta do governo federal para atrair capital privado à transição ecológica do país.
A meta do Fórum é captar até R$ 70 bilhões para a indústria verde nordestina até 2030, segundo informações divulgadas pela organização. Parte desse volume pode vir justamente pelo leilão EcoInvest: nesta quinta etapa do programa, o governo espera levantar R$ 50 bilhões, o que o tornaria o maior leilão do Eco Invest, segundo estimativa do secretário executivo do Ministério da Fazenda, Rogério Ceron.
O Fórum Powershoring é uma iniciativa conjunta do Consórcio Nordeste, do Instituto Clima e Sociedade (iCS) e do Banco do Brasil. Seu objetivo é posicionar o Nordeste como um hub global de indústria verde, capaz de atrair cadeias produtivas intensivas em energia para uma região que já detém vantagem competitiva clara: o Nordeste concentra 70% da geração solar e eólica do país.
O conceito central por trás da iniciativa é o de Powershoring. O termo foi criado pelo professor de economia da Universidade de Brasília Jorge Arbache e se refere à realocação da produção industrial para regiões próximas de fontes de energia renovável abundante e competitiva. Na prática, significa direcionar fábricas e cadeias produtivas para onde a energia limpa já existe em escala — e o Nordeste se encaixa nesse perfil como poucos lugares no mundo.
Em Londres, foram apresentados os instrumentos financeiros disponíveis no âmbito do EcoInvest Brasil, além de oportunidades de parceria e desenvolvimento de projetos industriais verdes entre Brasil e Europa. Os seis fundos previstos no 5º leilão serão direcionados a cadeias estratégicas como fertilizantes verdes, combustíveis verdes avançados, automação e inteligência artificial aplicada à indústria, beneficiamento de minerais críticos, sistemas de baterias e veículos elétricos, química verde, biomateriais e circularidade de resíduos minerais e industriais.
Com os quatro leilões já realizados, o Eco Invest Brasil alcançou mais de R$ 140 bilhões mobilizados e reúne 13 instituições financeiras credenciadas, consolidando-se como uma das principais plataformas de financiamento climático do país. A quinta rodada, se atingir sua meta, pode levar o programa perto da marca de R$ 200 bilhões acumulados.
Além da captação financeira, o Fórum aponta impactos ambientais e sociais concretos: a expectativa, segundo informações divulgadas pela organização, é evitar a emissão de até 100 milhões de toneladas de CO2 por ano e gerar milhares de empregos verdes na região. Um estudo recente do iCS e da London School of Economics (LSE) reforça esse cenário: a transição verde poderia gerar entre 300 mil e 350 mil empregos diretos e indiretos até 2035 na região, com impacto econômico total chegando a 5% do PIB nordestino.
Os estados do Nordeste concentram 78% da capacidade instalada de energia eólica e solar do país e têm localização geográfica privilegiada, infraestrutura logística e mão de obra qualificada. A região é atrativa para indústrias verdes e de difícil descarbonização, como siderurgia, fertilizantes e químicos, além de segmentos ligados a minerais críticos, baterias e combustíveis de baixo carbono.
Para o economista Jorge Arbache, criador do conceito de Powershoring, o próximo passo é transformar esse potencial em agenda articulada. "O ponto mais importante é a coordenação de políticas públicas e a coordenação dessas políticas com o setor privado. A região já oferece algumas das melhores condições do mundo em energia renovável, mas os investidores precisam conhecer essas oportunidades e ter segurança para investir", afirma.
Para a Bahia e toda a região do São Francisco, a aposta no Powershoring pode representar uma janela concreta de industrialização sustentável — desde que os investimentos captados em fóruns como o de Londres se convertam em projetos, empregos e renda para quem vive aqui.







