A última visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à Bahia deixou mais do que inaugurações e anúncios de investimentos. Deixou um recado político claro: o tom de 2026 será diferente do de 2022. Nos bastidores da política baiana, lideranças governistas avaliam que o chamado "pacto de não agressão" que teria existido na eleição passada não tem mais espaço — e que o que se viu na última semana foi só o início.
Na agenda do dia 1º de julho de 2026, ao lado do governador Jerônimo Rodrigues (PT), em evento com anúncios de investimentos federais superiores a R$ 400 milhões, Lula direcionou críticas diretas ao ex-prefeito de Salvador e pré-candidato da oposição ao governo da Bahia, ACM Neto (União Brasil), retomando a polêmica sobre a autodeclaração racial do político nas eleições de 2022.
Durante a inauguração do Hospital Estadual do Litoral Norte, em Alagoinhas, Lula se dirigiu ao governador Jerônimo e disse: "O teu adversário é tão mentiroso, que ele chegou a querer passar por negro" — referência à polêmica que se tornou tema nacional em 2022, quando ACM Neto se declarou pardo no registro eleitoral, gerando questionamentos políticos e ações de adversários.
No dia seguinte, Lula foi além e fez uma cobrança pública ao prefeito de Salvador, Bruno Reis (União Brasil), após ouvir o pedido de uma criança para que fossem retiradas pichações de casarões e muros da capital baiana. Segundo informações divulgadas pelo portal Bahia Notícias, a ofensiva pode ter sido planejada — parte de uma estratégia deliberada de "subida de tom" partindo para críticas públicas abertas.
Entre os fatores que, segundo aliados, explicam essa virada de postura, está o próprio comportamento de ACM Neto desde 2022. Interlocutores do PT apontam que, diferente do que ocorreu nas eleições de 2022 — quando o então candidato do União Brasil optou, ao menos publicamente, por não apoiar nem Lula nem Bolsonaro —, desta vez ACM Neto assumiu posição clara de oposição ao presidente.
O "arco de apoio" do pré-candidato também pesa nessa equação. Nomes como o senador Angelo Coronel (Republicanos), o pré-candidato a vice Zé Cocá (PP) e o pré-candidato ao Senado João Roma (PL) — todos com ligações ao bolsonarismo — compõem o grupo que cerca a candidatura de Neto, o que, na avaliação governista, coloca o ex-prefeito no campo oposto a Lula de forma inequívoca.
Há ainda uma leitura eleitoral estratégica por trás da mudança de postura. A avaliação de ACM Neto contrasta com o peso eleitoral de Lula na Bahia: o estado é um dos principais redutos do presidente no país e, nas eleições de 2022, lhe deu quase 80% dos votos válidos no segundo turno. O conhecido voto "LulaNeto" — em que eleitores baianos votavam em Lula para presidente e em Neto para governador — é justamente o que o grupo governista quer desmontar em 2026. "Lula irá [para o embate]. Ele tem mais a lucrar transformando o LulaNeto em LulaJero do que se conformando com isso", disse um interlocutor ouvido pelo portal Bahia Notícias.
Do lado da oposição, ACM Neto respondeu às críticas de Lula com ironia. Questionado por jornalistas, disse apenas: "Netinho, paz e amor". O pré-candidato ao governo da Bahia afirmou que a presença do presidente no estado não tem influência sobre a disputa eleitoral de 2026, minimizando o efeito das visitas presidenciais no cenário político estadual.
Segundo levantamento da Paraná Pesquisas divulgado em 1º de julho, ACM Neto aparece à frente do atual governador nas intenções de voto: o ex-prefeito registra 49,2%, contra 37,5% de Jerônimo Rodrigues. Com esse contexto, a decisão de Lula de intensificar o embate político na Bahia aponta para uma campanha que promete ser mais polarizada do que a de quatro anos atrás.







