O delegado André David (Republicanos), pré-candidato a uma das vagas ao Senado Federal por Sergipe nas eleições de 2026, tem apostado num discurso incomum para atrair eleitores: apresentar como credencial política o fato de ter enfrentado criminosos ao longo de duas décadas de carreira policial. A estratégia, porém, gerou uma resposta direta do governador Fábio Mitidieri (PSD), que deixou claro não ser essa a forma adequada de falar sobre o tema.
Em entrevista à rádio Fan FM, na última sexta-feira (19), o governador Mitidieri rebateu críticas do ex-secretário da Segurança Pública de Aracaju e afirmou que os resultados obtidos em Sergipe são fruto das políticas adotadas pelo Governo do Estado e dos investimentos realizados na área. Para ele, o delegado tenta se apropriar de uma conquista coletiva. "É como pegar carona em uma segurança pública que colocou Sergipe por três anos seguidos como o estado mais seguro do Nordeste. Quando dizem 'nós', eu pergunto: nós quem? Você foi secretário municipal em Aracaju por um ano, comandando a Guarda Municipal. Quer dizer que a segurança pública construída pelo Governo do Estado, pelas polícias e por todos os profissionais envolvidos foi feita por você?", questionou.
O governador foi além e rebateu a lógica do discurso de confronto. Mitidieri ressaltou que segurança pública não depende apenas de ações repressivas. "Segurança pública não se faz com tiro, porrada e bomba", afirmou, reposicionando o debate para o campo das políticas públicas e dos investimentos estruturais.
Entre 2022 e 2025, Sergipe registrou quedas consecutivas nos Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLIs) e passou a ocupar posição de destaque no Nordeste. Segundo dados do sistema Sinesp, do Ministério da Justiça e Segurança Pública, o estado se consolidou como o mais seguro da região. É justamente esse histórico que André David tenta incorporar como bandeira própria de campanha.
O delegado André David entrou na disputa após o fim da janela partidária e já aparece na liderança das intenções de voto para uma das duas vagas ao Senado. O pré-candidato anunciou sua candidatura apenas no início de abril — sua intenção inicial era disputar uma vaga na Câmara dos Deputados. A pesquisa do instituto Real Time Big Data apontou André David (Republicanos) liderando numericamente a corrida, com 15% das intenções de voto.
André David não ficou em silêncio. Durante entrevista, o delegado relembrou sua atuação em gestões passadas, citando os ex-governadores Jackson Barreto e Belivaldo Chagas, além do próprio Mitidieri, para reforçar sua trajetória na área de segurança, e destacou o período em que esteve à frente da Delegacia do Centro de Aracaju como exemplo de resultado prático. Ao final, André David sugeriu que o governador deveria se concentrar nos gargalos administrativos de Sergipe em vez de focar em provocações políticas.
O episódio acende um debate que vai além da escaramuça eleitoral. O Senado exige de seus representantes capacidade legislativa, articulação política e visão de Estado — funções bem diferentes das de uma operação policial. Outros delegados de polícia, como Alessandro Vieira (MDB) e Katarina Feitosa (PSD), se elegeram senador e deputada federal, respectivamente, sem recorrer ao vocabulário do confronto armado para convencer eleitores.
A pré-candidatura de André David foi construída dentro do grupo político liderado pela prefeita de Aracaju, Emília Corrêa (Republicanos), e pelo empresário Edvan Amorim. Com perfil alinhado ao bolsonarismo, a pré-candidatura do delegado deve impactar diretamente a configuração desse campo político no estado, podendo dividir o eleitorado que hoje se identifica com essa vertente, especialmente em relação ao pré-candidato Rodrigo Valadares (PL).
Para o governador, a resposta já foi dada. "Quando Sergipe era considerado o estado mais violento do Brasil, eles já eram delegados. O que mudou de lá para cá foi o governo, foram as políticas públicas, os investimentos e a parceria com as forças de segurança", afirmou Mitidieri. A eleição de outubro de 2026 vai mostrar se os sergipanos preferem um senador que chegou à política pelo currículo do palanque ou pela consistência das propostas.







