O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), foi ao Salão Verde da Câmara dos Deputados e fez questão de tomar partido. Diante da imprensa, declarou apoio ao senador Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo Lula na Casa, horas depois de a Polícia Federal cumprir mandados de busca e apreensão no senador baiano na 9ª fase da Operação Compliance Zero. O gesto não passou despercebido em Brasília.
Segundo análise do jornalista Teo Cury, da CNN Brasil, ao agir antes de qualquer manifestação do Palácio do Planalto, Alcolumbre inseriu um novo elemento na disputa política: a decisão sobre o que fazer com Wagner na liderança do governo no Senado agora recai com mais peso sobre o próprio Lula.
A Operação Compliance Zero investiga suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e crimes financeiros relacionados ao Banco Master e seu controlador, Daniel Vorcaro. Nesta nova fase, os agentes apreenderam cerca de 55 mil dólares e 33 mil euros em endereços ligados ao senador em Brasília e em Salvador.
Alcolumbre afirmou que todos os cidadãos, independentemente do partido político, têm direito à presunção de inocência e ao pleno exercício da defesa, e criticou a reação de adversários que comemoram operações policiais quando atingem congressistas de outros partidos, comportamento que, segundo ele, contribui para um ambiente de polarização e desrespeita garantias fundamentais.
Alcolumbre afirmou prestar "apoio" e "solidariedade integral" ao líder do governo no Senado e disse acreditar que, ao longo do processo, "as verdades do senador Jaques Wagner virão à tona".
O momento escolhido por Alcolumbre para o gesto não foi trivial. Além da operação que mirou Wagner, o próprio Alcolumbre havia aparecido no noticiário em reportagem da revista Veja como suposto destinatário de recursos transferidos por Daniel Vorcaro, acusação que ele rechaçou publicamente. Ou seja, os dois senadores estavam, cada um à sua maneira, no centro da mesma tempestade política.
Para a analista Isabel Mega, da CNN Brasil, o gesto de Alcolumbre pode ser lido como um aceno ao governo Lula como um todo. Segundo ela, o presidente do Senado já vinha sinalizando disposição para retomar o diálogo com o Palácio do Planalto, mas era o lado do governo que se mostrava mais reticente. Um dos temas que depende diretamente dessa retomada é a PEC que propõe o fim da jornada de trabalho 6x1, proposta que está completamente congelada no Senado sem nenhum avanço possível enquanto não houver um encontro entre Lula e Alcolumbre.
A manifestação ocorreu apesar do distanciamento entre Alcolumbre e Jaques Wagner desde novembro do ano passado, após o presidente Lula indicar Jorge Messias para uma vaga no Supremo Tribunal Federal. A derrota de Messias na CCJ do Senado — rejeitado por 42 votos a 34 — é um dos pontos que ainda marcam a tensão entre Alcolumbre e o Planalto.
Na Bahia, o caso provoca respingos no xadrez pré-eleitoral. A nova fase da Operação Compliance Zero provocou forte repercussão nos bastidores da política baiana, e as buscas realizadas em endereços ligados ao parlamentar ocorreram em um momento de intensa movimentação pré-eleitoral no estado. Entre os que optaram por não comentar o caso está o ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União Brasil), principal nome da oposição ao grupo petista na disputa pelo governo da Bahia.
A permanência de Jaques Wagner na liderança do governo no Senado passou a ser debatida dentro do Palácio do Planalto e do PT após a operação da Polícia Federal. O gesto de Alcolumbre, nesse contexto, funcionou como um catalisador: forçou o governo a se posicionar antes que quisesse.







