Toda vez que o Caboclo sai do Pavilhão da Lapinha e percorre as ruas de Salvador, ele carrega muito mais do que a memória da Independência. Há dois séculos, o cortejo do 2 de Julho funciona também como palco de disputa política — e essa característica não é nova. Ela está na própria origem da festa.
O 2 de Julho é a data magna que marca a Independência do Brasil na Bahia, com a expulsão das tropas portuguesas em 1823. A data marca a expulsão das últimas forças militares da Coroa portuguesa de Salvador e representa um dos episódios mais importantes da história nacional, resultado da mobilização de soldados, voluntários, mulheres, negros, indígenas, camponeses e lideranças populares que lutaram pela soberania do país.
As comemorações começaram no ano seguinte, em 1824. O cortejo da Lapinha repete o trajeto da entrada triunfal das tropas brasileiras libertadoras em Salvador, segundo informações do portal A Tarde, com base no livro "Algazarra nas Ruas", da historiadora Wlamyra Albuquerque. O Caboclo apareceu dois anos depois, em referência à Batalha de Pirajá de 1822 — e ele já trazia, desde o início, um recado político claro: a vitória era do povo, não da elite.
O 2 de Julho acaba se contrapondo ao 7 de Setembro: o 7 de setembro é um ato de um nobre português e o 2 de julho é resultado da participação de indígenas, de negros, de negras, de pessoas pobres, livres, de vários lugares. Não à toa, as elites baianas sempre olharam para a festa com desconforto.
De acordo com a fonte original, após a Proclamação da República, o Instituto Geográfico e Histórico da Bahia tentou substituir o caráter popular do cortejo por um desfile de padrão europeu, eliminando sambas e batuques que considerava "bárbaros". Houve inclusive tentativas de trocar o Caboclo por um monumento de bronze no Campo Grande ou por uma figura simbólica de uma "Atenas baiana" — porque o Caboclo, popular e negro, incomodava quem queria o branqueamento da celebração.
O governador J.J. Seabra, que comandou a Bahia em dois mandatos entre 1912 e 1924, foi um dos políticos a usar explicitamente a data como vitrine de poder. Segundo informações da reportagem do A Tarde, ele promoveu reformas urbanas para "civilizar" a festa no centenário de 1923, querendo mostrar uma Bahia moderna aos visitantes do Sul do país. Já os jornais de oposição da época usavam a organização do desfile para atacar o governo — o mesmo padrão que se repete até hoje.
Desde os primeiros anos, as comemorações da Independência do Brasil na Bahia eram compartilhadas por diversos segmentos da sociedade. Ainda hoje, a festa é palco para manifestações políticas e de civismo impregnado de referências culturais.
Em Salvador, além de toda marca cultural, a festa cívica passou a ter uma grande conotação política. Candidatos nas eleições passaram a utilizar os festejos do 2 de julho como termômetro para a disputa eleitoral. As figuras políticas montam cortejos com apoiadores e membros de partidos para saírem em caminhada, entre os bairros da Lapinha até ao Pelourinho.
Esse fenômeno ficou evidente no 2 de Julho de 2025. Lula e Janja foram aplaudidos e vaiados; o prefeito da capital, Bruno Reis, foi aplaudido e vaiado; e o governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues, foi vaiado. As vaias foram, no mínimo, surpreendentes. Afinal, a Bahia é governada há anos pelo PT — estado onde Lula historicamente vence com folga, tendo recebido 72,12% dos votos válidos em 2022.
O desfile, que recentemente completou seu bicentenário, consolidou-se como um importante termômetro político e eleitoral. Jornalistas acompanham atentamente cada detalhe: quem foi aplaudido, quem foi vaiado, quem atraiu mais apoiadores, quem conseguiu mobilizar o público. Mas essa leitura também se tornou mais difícil. Com a organização de caravanas e grupos de militância, muitas manifestações acabam sendo planejadas, tornando menos espontânea a percepção da popularidade de cada liderança.
Com as eleições de 2026 se aproximando, a disputa só tende a se acirrar. O evento costuma servir como uma espécie de termômetro político, especialmente quando se trata de ano eleitoral — exatamente o que teremos neste 2026. A data cívico-popular reúne autoridades e é tradicionalmente coberta com destaque pela imprensa. O cortejo pelas ruas de Salvador atrai políticos de todo o país — inclusive o presidente da República — especialmente em anos eleitorais.
O que começou como celebração da resistência popular contra as tropas portuguesas se tornou, também, um espelho fiel do humor político dos baianos. Vaias ou aplausos, o povo não abre mão de dar o seu recado nas ruas — e os políticos sabem disso.







