A Bahia encabeça o ranking nacional de repasses públicos destinados à contratação de artistas. Entre janeiro de 2024 e março de 2026, o estado acumulou R$ 578 milhões em contratos de shows pagos por prefeituras municipais e pelo governo estadual. Os dados constam no dossiê Farras: como os shows com dinheiro público conectam artistas, bets, política e agronegócio, divulgado pelo observatório investigativo De Olho nos Ruralistas em 1º de julho de 2026.
Pernambuco aparece logo atrás, com R$ 573 milhões, e o Ceará fecha o pódio nordestino com R$ 316 milhões. A distância para o quarto colocado, Minas Gerais (R$ 192 milhões), já é expressiva. O estado do Acre foi o único sem registros no levantamento. Por região, o Nordeste concentra a maior fatia dos gastos no país.
A pesquisa levou seis meses para ser concluída. A equipe do observatório mergulhou em mais de 20 mil contratos, sendo que quase 40% deles não estavam disponíveis no Portal Nacional de Contratações Públicas (PNCP), principal referência para jornalistas e pesquisadores. Isso indica que a escala real dos gastos é ainda maior do que a oficialmente registrada nos sistemas federais.
No total nacional, os 100 artistas mais contratados no período receberam juntos mais de R$ 5 bilhões em cachês pagos por prefeituras e governos estaduais. Um grupo ainda mais restrito, de apenas 40 artistas, concentrou R$ 3,08 bilhões — valor próximo ao orçamento do Ministério da Cultura para 2026, fixado em R$ 3,26 bilhões. A maioria dessas contratações ocorreu por inexigibilidade de licitação, ou seja, sem concorrência, justificada pela notoriedade do artista.
Na Bahia, segundo informações divulgadas pelo Bahia Notícias com base no dossiê, Salvador foi a segunda cidade brasileira que mais contratou artistas, com R$ 34,16 milhões no período analisado. No ranking das cidades, Aracaju (SE) ficou em primeiro, com R$ 39,27 milhões. Entre os gêneros musicais mais contratados na Bahia — sem contar o São João de 2026 —, brega, arrocha e piseiro lideraram as quantidades; axé e pagodão ficaram entre os menos procurados pelas prefeituras.
Ainda de acordo com as informações do dossiê, entre os 40 artistas com os maiores cachês baianos, Léo Santana registrou o maior contrato individual, de R$ 1,6 milhão. Wesley Safadão aparece em segundo, com até R$ 1,5 milhão por apresentação, e Bell Marques em terceiro, com R$ 1,2 milhão. As vaquejadas se destacam pelos valores elevados pagos a artistas: o maior contrato identificado no estado foi em Formosa do Rio Preto, no oeste da Bahia, alvo de ação do Ministério Público da Bahia (MP-BA) e do Tribunal de Contas dos Municípios (TCM). A vaquejada de Morro do Chapéu também aparece no ranking dos eventos com cachês mais altos.
O cenário não é exclusividade da Bahia. Em nível nacional, o dossiê aponta que cinco produtoras nordestinas concentram R$ 2,42 bilhões em contratos públicos. Metade dos 40 artistas mais contratados do país está ligada a empresas associadas a Wesley Safadão e Xand Avião. O relatório não conclui que houve ilegalidades, mas aponta a concentração de recursos em um número reduzido de grupos empresariais como um elemento que merece atenção dos órgãos de controle.
Na Bahia, o Ministério Público estadual já recomendou, por meio de Nota Técnica Conjunta, que os municípios não pagassem cachês acima dos valores médios praticados em 2025, corrigidos pelo IPCA. A recomendação surgiu após relatos de que os escritórios de artistas estavam cobrando entre 30% e 100% a mais do que no ano anterior para os festejos juninos de 2026. O dossiê Farras agora coloca em perspectiva nacional um problema que, no estado, já havia chamado a atenção das autoridades locais.







