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Bahia aposta em soja, milho e biomassa para liderar a nova era dos biocombustíveis no Brasil

Com safras recordes e diversidade de oleaginosas, o estado acumula potencial energético ainda pouco explorado enquanto a dependência de derivados de petróleo pressiona a balança comercial baiana.

Redação ChicoSabeTudoRedação · Política
24 de maio, 2026 · 06:13 3 min de leitura
Portal ChicoSabeTudo
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A Bahia vive um momento singular na produção agrícola. Ao mesmo tempo em que bate recordes na colheita de soja e milho, o estado enfrenta um debate urgente: como transformar essa abundância de grãos e oleaginosas em combustível limpo, reduzindo uma dependência cara de derivados do petróleo importados.

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Segundo informações divulgadas pelo portal A Tarde, a Bahia gasta ao menos US$ 206,1 milhões na compra de combustíveis derivados do petróleo, o que representa cerca de 20,1% do total dessas importações. O diagnóstico expõe uma contradição: o estado é potência em energia renovável e em grãos, mas ainda converte pouco dessa riqueza em biocombustível.

Para o coordenador do Laboratório de Energia e Gás (LEN) da Escola Politécnica da UFBA, Ednildo Andrade, a instabilidade geopolítica no Oriente Médio escancarou essa vulnerabilidade. "Nós temos que continuar incentivando as energias solar e eólica, mas também temos que avançar para a biomassa", afirmou o pesquisador, defendendo a diversificação energética como questão de segurança nacional.

Andrade destaca ainda o potencial do SAF — o combustível sustentável de aviação —, que pode ser produzido a partir de qualquer oleaginosa. A partir de 2027, com a Lei do Combustível do Futuro, os operadores aéreos serão obrigados a reduzir gradualmente as emissões de gases de efeito estufa nos voos domésticos, começando com 1% e atingindo 10% em 2037. Esse mercado representa uma janela estratégica para a produção baiana.

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No campo, os números são expressivos. A Bahia encerrou a safra 2025/26 de soja com produtividade média de 71 sacas por hectare, novo recorde histórico do estado, e produção total superior a 9,4 milhões de toneladas — dados divulgados pela Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba). A Aiba destacou que esse índice posiciona a Bahia como o estado com maior produtividade de soja do país na safra 2025/26, superando tradicionais polos produtores como Mato Grosso e Paraná.

O milho também avança. O grão deve somar 2,87 milhões de toneladas na safra atual, com destaque para as áreas irrigadas do Oeste Baiano. O Governo do Estado mapeou o Oeste Baiano como uma das regiões mais promissoras para o aproveitamento energético de resíduos do agronegócio, especialmente de milho e soja.

Além de soja e milho, a Bahia conta com fontes menos convencionais de biomassa, segundo informações da reportagem original: o sorgo, a macaúba e a agave tequilana estão entre as matérias-primas com maior potencial para combustíveis verdes. O professor Felipe Torres, da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), defende que o Brasil tem enorme margem para ampliar sua cadeia de biocombustíveis, especialmente pelas rotas de segunda geração, que aproveitam resíduos agrícolas e matérias-primas não comestíveis. Para ele, o país já consolidou posição histórica em etanol e biodiesel, mas precisa avançar para tecnologias mais sofisticadas.

No cenário nacional, dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) mostram que, em 2024, as diferentes biomassas somaram 18.062 MW de capacidade instalada, o equivalente a 8,5% da matriz elétrica nacional. O óleo de soja é a fonte de matéria-prima mais importante para a produção de biodiesel no Brasil, respondendo por cerca de 75% do total em 2024.

Para Carlos Danilo, especialista em desenvolvimento industrial de energia da Federação de Indústrias do Estado da Bahia (FIEB), o estado é um dos maiores protagonistas nacionais em energia limpa, mas ainda não explorou nem 20% desse potencial energético, segundo informações da reportagem de origem. A afirmação ilustra tanto o quanto foi feito quanto o tamanho do caminho que ainda resta percorrer.

O cenário atual combina pressão externa — pela volatilidade do petróleo — com vantagem interna: solo fértil, colheitas recordes e pesquisa em expansão. A questão não é mais se a Bahia tem matéria-prima. A questão é quando vai começar a transformá-la em energia de verdade.

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