O aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial já colocou Alagoas em modo de alerta. Com a possibilidade crescente de formação de um novo episódio de El Niño ao longo do segundo semestre de 2026, órgãos estaduais e municipais iniciaram um conjunto de medidas para minimizar os efeitos sobre o abastecimento de água, a produção rural e a população mais vulnerável do interior alagoano.
O cenário preocupa especialmente o Agreste e o Sertão. Segundo o meteorologista Vinicius Pinho, da Sala de Alerta da Secretaria de Estado do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos (Semarh-AL), o fenômeno altera diretamente o transporte de umidade que alimenta as chuvas do semiárido nordestino. De acordo com ele, o aquecimento do Pacífico intensifica o fluxo de umidade em direção ao Sul do Brasil e reduz o que chega ao Nordeste, diminuindo o "combustível" para a formação de chuvas. Estudos citados pelo especialista indicam que, a cada grau de aumento da temperatura média do Pacífico Equatorial, pode haver uma redução próxima de 7% das chuvas na região — segundo informações divulgadas pelo Cadaminuto com base em dados da Semarh.
A incerteza ainda persiste sobre a intensidade do fenômeno. Institutos como o INPE, o INMET e a NOAA americana confirmam que o fenômeno tem alta probabilidade — superior a 80% — de se configurar ao longo do segundo semestre de 2026, podendo se estender até, pelo menos, o início de 2027. O meteorologista da Semarh-AL reconhece que os modelos apontam para a formação do El Niño, mas que ainda há muita incerteza quanto à intensidade, e que o estado se prepara para todos os cenários, incluindo o pior.
O risco não é exclusivo de Alagoas. No oeste e no norte da Bahia, os efeitos se assemelham, com ondas de calor que causam estiagem e influenciam o nível dos corpos d'água. O calor acima da média aumenta a perda de água por evaporação e pressiona o pasto e o rebanho, com risco de redução em reservatórios importantes, como o de Sobradinho. Para toda a faixa do semiárido nordestino, a probabilidade de formação do fenômeno já supera os 60% entre maio e julho, escalando para 90% na segunda metade de 2026, segundo a NOAA.
A preocupação central de Alagoas está no período pós-chuvas. A Semarh informa que mais de 70% da recarga hídrica anual do estado ocorre durante o inverno chuvoso, o que significa que uma temporada abaixo da média pode comprometer a disponibilidade de água durante toda a próxima estação seca, afetando o abastecimento urbano e a agricultura familiar. Historicamente, o Nordeste já foi devastado por estiagens severas associadas ao fenômeno, com lavouras destruídas, êxodo em massa e crises que marcaram gerações.
No plano federal, o Governo instalou no dia 18 de junho uma Sala de Situação Interministerial para monitorar os prognósticos climáticos e coordenar ações preventivas. O Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) acompanha de perto as atualizações dos principais centros internacionais de meteorologia sobre a possível confirmação do fenômeno no segundo semestre de 2026. Caso o cenário se confirme, o fenômeno deverá influenciar principalmente o final do inverno e a primavera no Brasil.
Em Alagoas, o governo estadual responde com ações concretas. A Semarh passou a monitorar as condições meteorológicas dos 102 municípios alagoanos de forma simultânea e em tempo real por meio da Sala de Alerta. Entre os instrumentos de segurança hídrica estão microssistemas comunitários de abastecimento, o Programa Água Doce, a perfuração de poços artesianos e o Canal do Sertão, voltados principalmente para as cidades do interior. Se os modelos indicarem um cenário mais grave, o governo estuda criar uma comissão multidisciplinar para acompanhar a evolução do fenômeno.
Especialistas recomendam cautela, mas sem negligência. Para o Nordeste, o El Niño por si só não é sinônimo de seca: é preciso ficar igualmente atento ao sinal do Atlântico, o aquecimento do oceano na costa nordestina, tanto do leste como do norte. Quando o Atlântico está aquecido, ameniza os efeitos do Pacífico; quando está frio, os dois sinais se somam — e o resultado pode ser devastador. Por enquanto, os modelos indicam que o Atlântico seguirá aquecido, o que pode amenizar parte dos efeitos — mas não eliminar o risco para o interior.







