Uma pequena ilha na Baía de Todos os Santos, no município de Vera Cruz (BA), inventou a própria solução para um problema que sufoca comunidades inteiras pelo Brasil: ver o dinheiro gerado localmente escorrer para fora. A resposta foi uma moeda. Não o real, mas a Concha — o circulante local de Matarandiba que, desde 2008, redefiniu a relação dos moradores com o comércio, o crédito e a geração de renda.
Com aproximadamente 900 habitantes, a Vila de Matarandiba está localizada na contracosta da Ilha de Itaparica, pertencendo ao município de Vera Cruz, na Região Metropolitana de Salvador. A população vive principalmente da renda gerada pela pesca artesanal e do extrativismo das áreas de manguezais. Apesar do potencial natural e cultural da região, a comunidade enfrentava condições socioeconômicas frágeis e serviços básicos precários.
O diagnóstico que motivou a criação da Concha foi revelador. A moeda social surgiu após um mapeamento socioeconômico feito no local. Verificou-se que menos de 20% do PIB eram gastos na própria comunidade — os 80% restantes iam para outros locais, segundo a agente articuladora da Ecosmar, Enerilena de Jesus. Reter esse fluxo dentro da ilha tornou-se o objetivo central.
A economia solidária em Matarandiba começou com reivindicações por projetos sociais feitas à Dow Brasil, que possui unidade na região. Os pedidos foram apresentados pela Associação Comunitária de Matarandiba (Ascoma). A Dow procurou a Universidade Federal da Bahia (UFBA) e firmou parceria em busca do que poderia ser implantado, e daí surgiu o Ecosmar. O banco comunitário iniciou as atividades com R$ 5 mil investidos pela Dow e passou a desenvolver microcréditos para produção, consumo, reforma e crédito jovem, além das trocas das moedas.
A moeda social Concha, equivalente local de troca utilizado pelo Banco Comunitário de Desenvolvimento (BCD) Ilhamar, foi lançada na comunidade de Matarandiba em novembro de 2008. O Banco Ilhamar foi o segundo banco comunitário da Bahia a operar com moeda social circulante. O banco surgiu através de uma doação da Dow Brasil, que aportou aproximadamente R$ 5 mil para movimentar a economia. Em oito meses, o capital dobrou para R$ 12.932, segundo relatos da época.
O design das notas carrega a identidade da vila. Todo o trabalho de concepção iconográfica foi realizado pelos próprios moradores, refletindo nas moedas os signos do cotidiano local, como as imagens dos pescadores e das marisqueiras, além das manifestações culturais tradicionais da região. Para a nota de C$ 0,50 foi escolhido o Boi Janeiro, manifestação folclórica local; a de C$ 1 tem um caranguejo; a de C$ 2, uma marisqueira; a de C$ 5, um pescador jogando sua rede ao mar; e na de C$ 10, uma igreja católica com uma mulher dançando o São Gonçalo.
As regras da Concha são simples. No banco comunitário, os moradores trocam reais por conchas. A regra, porém, não permite que eles troquem a concha de volta por real. Já o comerciante tem entre 15 e 30 dias, se houver necessidade de efetuar compras fora da localidade, para desfazer a troca. Isso garante que a moeda permaneça circulando dentro da ilha.
Para incentivar o uso da Concha, que equivale ao real, muitos comércios da comunidade começaram a oferecer descontos nos produtos e, atualmente, 90% do comércio aceita a moeda social. Emitida com controle de segurança pelo banco comunitário, as notas de Concha são concedidas na forma de crédito aos moradores, que pagam sem juros ou com taxas muito baixas, a depender da linha de crédito.
A implantação do BCD Ilhamar, em parceria com as atividades já desenvolvidas pela Ascoma, ajudou e continua ajudando no desenvolvimento educacional, social e cultural, além de gerar oportunidade de emprego e renda para os moradores da vila, modificando todo o cenário econômico da comunidade.
A experiência de Matarandiba ganhou projeção nacional e internacional. O Banco Comunitário de Desenvolvimento Ilhamar participou do Fórum Social Mundial de 2018, em Salvador, onde a experiência foi compartilhada num contexto amplo de discussão sobre perspectivas das finanças solidárias no Brasil. A Concha hoje faz parte de um cenário maior: a Bahia conta atualmente com seis bancos comunitários — Santa Luzia, Ilhamar, Banco Solidário Quilombola do Iguape, Ecoluzia, Banex e BancoSol — com moedas sociais como Umoja, Concha, Sururu, Moex, Trilha e Pepita. No Brasil, segundo dados da Rede Brasileira de Bancos Comunitários e Municipais, o país possui 182 bancos, 22 mil comércios credenciados e 220 mil usuários de moeda social.
O que nasceu de uma reivindicação comunitária numa ilha de pescadores baianos virou referência de como comunidades periféricas podem organizar a própria economia — sem esperar que o dinheiro chegue de fora.







