Última hora
37391
Cultura

Professor e humorista baiano defende que escolas particulares têm déficit grave no ensino do 2 de Julho

Matheus Buente aponta que redes privadas priorizam vestibulares em detrimento da história local e defende que a data deveria ser reconhecida como marco nacional da independência brasileira.

Redação ChicoSabeTudo
02 de julho, 2026 · 03:25 3 min de leitura
Matheus Buente, professor de História e humorista baiano, defensor do 2 de Julho
Matheus Buente, professor de História e humorista baiano, defensor do 2 de Julho

O professor de História e humorista Matheus Buente não tem papas na língua quando o assunto é o 2 de Julho. Em entrevista ao jornal A Tarde, ele foi direto: as escolas particulares da Bahia falham feio no ensino da data. Enquanto o professor da rede pública costuma ter mais autonomia para construir essa memória, as instituições privadas direcionam o currículo para vestibulares que cobram pouco conteúdo regional — e a história local fica de fora.

Publicidade

"Até porque exaltar o 2 de Julho é exaltar o povo baiano", afirmou Buente na entrevista. Para ele, conhecer a história local não é detalhe opcional: é parte essencial da formação cidadã. Muitos estudantes de colégios particulares dominam o conteúdo cobrado pelo Enem, mas não sabem contar a própria história de Salvador ou da Bahia.

Buente reconhece avanços: segundo ele, os livros didáticos de História já citam mais as lutas travadas no Nordeste e dão mais destaque ao que aconteceu na Bahia durante o processo de independência. Mas o progresso ainda é desigual entre as redes de ensino.

Graduado em História pela Universidade Católica de Salvador, Buente tem mais de 15 anos de experiência como professor da educação básica e, durante uma década, conciliou o ensino com a comédia de stand-up, unindo conhecimento histórico a um estilo irreverente de humor que aborda temas sociais e históricos de forma provocativa e engraçada.

Publicidade

Foi exatamente essa combinação que resultou na série 02 de Julho – A Verdadeira Independência do Brasil. Veiculada nas redes sociais e na rádio, a produção somou quase dois milhões de visualizações apenas no YouTube e no Instagram. O projeto foi realizado em parceria com o Grupo Metrópole e contou os principais acontecimentos e curiosidades da data de forma descontraída e engraçada. Para Buente, o humor serve como porta de entrada — não substitui o conteúdo, mas desperta a curiosidade para que as pessoas queiram saber mais.

Na entrevista, o professor também falou sobre personagens e episódios curiosos do 2 de Julho. Um dos que mais o encanta é o das Caretas do Mingau: segundo ele, eram mulheres que levavam alimentos aos combatentes baianos durante o cerco e, para passar pelos portugueses, se vestiam de branco, usavam chapéus de palha e faziam barulho pelo caminho. Cartas da época relatam que alguns soldados portugueses chegaram a acreditar estar enfrentando uma batalha espiritual. Já o episódio da surra de cansanção atribuída a Maria Felipa, muito popular no imaginário baiano, é tratado por Buente com cautela: ele aponta que a história é historicamente contestada, embora siga viva na memória coletiva.

O debate sobre o reconhecimento nacional da data ganhou força recentemente. Em julho de 2025, o presidente Lula encaminhou ao Congresso Nacional um Projeto de Lei para tornar o dia 2 de julho o Dia Nacional da Consolidação da Independência do Brasil. Conforme a justificativa da proposta, assinada pela ministra da Cultura Margareth Menezes, em 2 de julho celebra-se a vitória sobre as forças coloniais na guerra de independência travada em solo baiano. O texto destaca que foi um movimento popular e social, por envolver diferentes setores da sociedade, reunidos em prol da liberdade e da autonomia nacional.

Buente vai além: defende que a verdadeira independência do Brasil deveria ser comemorada em 2 de Julho — e que, um dia, até o Hino Nacional pudesse ser substituído pelo Hino ao 2 de Julho. Para ele, a data representa o povo brasileiro de forma muito mais ampla do que o 7 de Setembro, protagonizado por uma figura nobre. No 2 de Julho, os heróis são negros, indígenas, mulheres e pobres — gente comum que lutou de verdade.

Em 2025, Buente recebeu o Prêmio Paulo Gustavo de Humor, instituído pela Câmara dos Deputados, sendo o único representante da Bahia e do Nordeste entre os vencedores — um reconhecimento que reforça o alcance nacional de um trabalho que nasceu dentro de sala de aula e foi parar nos palcos de todo o Brasil.

Leia também