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Cultura

Herança de Dona Socorro: como os Brito guardam o São João vivo no Sertão alagoano

De rua em rua até o sítio do Zé Burrego, os descendentes de uma matriarca transformam memória afetiva em celebração junina que não se apaga.

Redação ChicoSabeTudo
03 de julho, 2026 · 01:13 3 min de leitura
Família reunida ao redor de fogueira junina no sertão alagoano, com decorações típicas de São João
Família reunida ao redor de fogueira junina no sertão alagoano, com decorações típicas de São João

Em Delmiro Gouveia, no Alto Sertão de Alagoas, há uma família que trata o São João como assunto sério demais para ser deixado passar. Os Brito celebram os festejos juninos há décadas, e mesmo com o mundo mudando ao redor, a fogueira continua acesa — literalmente.

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A história começou nas ruas da cidade. Primeiro na Rua Freitas, onde a vizinhança inteira entrava no ritmo: decorações, fogueiras, enfeites e muita gente reunida. Depois, a Rua F virou o novo palco — e foi premiada mais de uma vez como uma das mais bonitas de Delmiro Gouveia pelas caprichosas decorações juninas. Tudo isso tinha um nome por trás: Dona Socorro, a matriarca da família, cuja energia contagiava quem chegava perto.

Segundo informações divulgadas pelo portal ITNoticias, mesmo após a partida de Dona Socorro, filhos, netos e bisnetos decidiram que a herança cultural não poderia morrer. O endereço mudou, mas o espírito ficou. Hoje, os festejos acontecem no Sítio Alto do Guirra, propriedade de Zé Burrego, avô de Mariana Brito, que registrou em vídeo um encontro especial da família para relembrar o passado e celebrar o presente.

Os depoimentos dos filhos de Dona Socorro revelam o papel central da matriarca nessa tradição. Ela era quem reunia todos — primos chegando de Recife, de Maceió —, quem enfeitava a rua, quem acendia a fogueira e quem colocava a panela de canjica no fogo. Comer é parte essencial da celebração — não só pelo sabor, mas pela memória afetiva que cada receita carrega. Para os Brito, isso é literal: preparar a canjica hoje é uma forma de sentir a mãe presente.

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Aos sons do forró pé-de-serra, canções como as de Luiz Gonzaga ajudaram a consolidar uma imagem sonora do Nordeste: o sertão, a chuva esperada, a fé, a saudade, a festa no interior e a força das tradições populares. Os filhos de Dona Socorro lembram da "vitrola tocando Pagode Russo" — clássico do Rei do Baião — como trilha inseparável das noites juninas da infância. Pagode Russo continua sendo presença obrigatória em qualquer playlist junina.

No Sítio Alto do Guirra, a família improvisa quadrilha entre si, prepara os pratos típicos da época e dança forró até tarde. A fogueira, como símbolo junino, ilumina os costumes. O milho, e tudo que dele é feito, dá gosto à memória de tantas festas vividas pelas famílias reunidas. Para os Brito, cada detalhe funciona como uma máquina do tempo.

Delmiro Gouveia, conhecida como a Capital dos Cânions, tem o período junino como um dos mais extensos do calendário cultural, com programação que alcança bairros, povoados e distritos. Mas enquanto a festa pública cresce e se organiza, são histórias como a dos Brito que guardam a essência mais antiga dos festejos — aquela que não cabe em palco nem em grade de shows.

Para a família, o São João não é data no calendário. É identidade. Como sintetizaram os próprios integrantes ao fechar o encontro no sítio: "Nossa família tem história, e o São João com certeza faz parte dela." Enquanto depender dos Brito, a fogueira de Dona Socorro continuará acesa — de geração em geração, no coração do Sertão.

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