Em Delmiro Gouveia, no Alto Sertão de Alagoas, há uma família que trata o São João como assunto sério demais para ser deixado passar. Os Brito celebram os festejos juninos há décadas, e mesmo com o mundo mudando ao redor, a fogueira continua acesa — literalmente.
A história começou nas ruas da cidade. Primeiro na Rua Freitas, onde a vizinhança inteira entrava no ritmo: decorações, fogueiras, enfeites e muita gente reunida. Depois, a Rua F virou o novo palco — e foi premiada mais de uma vez como uma das mais bonitas de Delmiro Gouveia pelas caprichosas decorações juninas. Tudo isso tinha um nome por trás: Dona Socorro, a matriarca da família, cuja energia contagiava quem chegava perto.
Segundo informações divulgadas pelo portal ITNoticias, mesmo após a partida de Dona Socorro, filhos, netos e bisnetos decidiram que a herança cultural não poderia morrer. O endereço mudou, mas o espírito ficou. Hoje, os festejos acontecem no Sítio Alto do Guirra, propriedade de Zé Burrego, avô de Mariana Brito, que registrou em vídeo um encontro especial da família para relembrar o passado e celebrar o presente.
Os depoimentos dos filhos de Dona Socorro revelam o papel central da matriarca nessa tradição. Ela era quem reunia todos — primos chegando de Recife, de Maceió —, quem enfeitava a rua, quem acendia a fogueira e quem colocava a panela de canjica no fogo. Comer é parte essencial da celebração — não só pelo sabor, mas pela memória afetiva que cada receita carrega. Para os Brito, isso é literal: preparar a canjica hoje é uma forma de sentir a mãe presente.
Aos sons do forró pé-de-serra, canções como as de Luiz Gonzaga ajudaram a consolidar uma imagem sonora do Nordeste: o sertão, a chuva esperada, a fé, a saudade, a festa no interior e a força das tradições populares. Os filhos de Dona Socorro lembram da "vitrola tocando Pagode Russo" — clássico do Rei do Baião — como trilha inseparável das noites juninas da infância. Pagode Russo continua sendo presença obrigatória em qualquer playlist junina.
No Sítio Alto do Guirra, a família improvisa quadrilha entre si, prepara os pratos típicos da época e dança forró até tarde. A fogueira, como símbolo junino, ilumina os costumes. O milho, e tudo que dele é feito, dá gosto à memória de tantas festas vividas pelas famílias reunidas. Para os Brito, cada detalhe funciona como uma máquina do tempo.
Delmiro Gouveia, conhecida como a Capital dos Cânions, tem o período junino como um dos mais extensos do calendário cultural, com programação que alcança bairros, povoados e distritos. Mas enquanto a festa pública cresce e se organiza, são histórias como a dos Brito que guardam a essência mais antiga dos festejos — aquela que não cabe em palco nem em grade de shows.
Para a família, o São João não é data no calendário. É identidade. Como sintetizaram os próprios integrantes ao fechar o encontro no sítio: "Nossa família tem história, e o São João com certeza faz parte dela." Enquanto depender dos Brito, a fogueira de Dona Socorro continuará acesa — de geração em geração, no coração do Sertão.







