A cardiopatia congênita é uma alteração na estrutura do coração que se forma ainda durante a gestação. A criança já nasce com o problema, que pode variar de casos simples a situações que exigem cirurgia nos primeiros meses de vida. Em Alagoas, o volume de bebês afetados é expressivo — e os números revelam a dimensão do desafio para a saúde pública no Nordeste.
Segundo informações divulgadas pelo cardiologista José Leitão, que atua no Hospital do Coração Alagoano e coordena o Serviço Estadual de Cardiopediatria, a estimativa é de que quase 500 crianças nascem anualmente no estado com algum problema cardíaco congênito. Desse total, cerca de 360 precisam de tratamento especializado logo nos primeiros meses de vida.
O dado reflete um padrão nacional. A Sociedade Brasileira de Cardiologia aponta que, no Brasil, são registrados cerca de 10 casos a cada mil nascidos vivos, o equivalente a aproximadamente 29 mil crianças por ano. Considerada uma das principais causas de mortalidade infantil por malformações, a condição exige diagnóstico precoce e acompanhamento especializado para aumentar as chances de sobrevivência.
Segundo José Leitão, de cada mil crianças nascidas vivas, cerca de 10 apresentam algum tipo de cardiopatia congênita — e aproximadamente 70% delas precisarão de alguma intervenção ainda no primeiro ano de vida, conforme informações divulgadas pelo especialista ao portal Cada Minuto. A identificação precoce faz toda a diferença no prognóstico.
A malformação pode ser descoberta ainda na gravidez, com o ecocardiograma fetal, ou no início da vida, por meio do teste do coraçãozinho, realizado entre 24 e 48 horas após o nascimento. Nos casos de cardiopatias graves, o tratamento adequado nos primeiros dias de vida é fundamental — quanto mais cedo o diagnóstico for feito, menor o risco de lesões que tornem a cirurgia inviável.
O Ministério da Saúde incorporou o exame de oximetria de pulso — o chamado Teste do Coraçãozinho — como parte da triagem neonatal em todo o SUS. O exame é capaz de detectar precocemente ocorrências graves e reduzir o número de recém-nascidos que recebem alta sem diagnóstico de problemas que podem levar ao óbito no primeiro mês de vida.
A desigualdade regional no acesso ao diagnóstico ainda é uma realidade. A coordenadora da Divisão de Cardiologia da Criança e do Adolescente do Instituto Nacional de Cardiologia (INC), Renata Mattos, afirma que o acesso ao diagnóstico vem aumentando, embora ainda existam diferenças entre regiões — com a Região Sudeste em vantagem em relação ao Norte e Nordeste. "De forma geral, o acesso ao tratamento está cada vez melhor", avalia. Historicamente, crianças do Norte e Nordeste com diagnóstico tardio chegavam à fila de regulação nacional fora da janela ideal de intervenção, muitas vezes aguardando mais de seis meses por atendimento.
Para reduzir esse cenário em Alagoas, a Secretaria de Estado da Saúde (Sesau) implantou, há pouco mais de um ano, o Serviço Estadual de Cardiopediatria, sediado no Hospital do Coração Alagoano, em Maceió. O serviço reúne equipe multiprofissional e estrutura para atendimento de alta complexidade, desde o diagnóstico até o tratamento cirúrgico, segundo informações divulgadas pelo próprio hospital.
Um dos casos acompanhados pelo serviço é o de Kauã Vinícius Martins, de 14 anos, que tem Síndrome de Down e nasceu com cardiopatia congênita. Ele passou por cirurgia e segue em acompanhamento regular. Sua mãe, Joelma Correia, de 49 anos, relatou que o filho sente cansaço frequente a qualquer esforço — e que a segurança de ter uma equipe especializada acompanhando o caso traz tranquilidade para a família.
Especialistas ressaltam que crianças e adolescentes com cardiopatia congênita hoje podem crescer, trabalhar e praticar exercícios, desde que mantenham monitoramento médico regular. O acompanhamento contínuo ao longo da vida é parte essencial do tratamento, independentemente da gravidade inicial do diagnóstico.







