Uma equipe de neurocirurgiões da Santa Casa de Maceió realizou, nesta semana, um procedimento que impressiona até quem é da área: a retirada de um tumor cerebral com a paciente completamente acordada durante parte da operação. O caso envolveu um glioma cerebral de alto grau localizado em uma região considerada eloquente — aquela que controla funções essenciais como fala e movimentos.
O procedimento foi conduzido pelo neurocirurgião Duarte Cândido, com a participação do neurocirurgião Anderson Gonçalves e uma equipe formada por especialistas em neurofisiologia, neurologia cognitiva, anestesiologia e instrumentação cirúrgica, segundo informações divulgadas pela instituição.
Durante a cirurgia, a paciente conversava, respondia perguntas e executava testes de linguagem e motricidade enquanto os médicos operavam. "Durante o procedimento, a paciente conversa, movimenta-se e passa por testes de linguagem e motricidade para que possamos preservar essas funções e garantir a maior retirada possível do tumor com segurança", explicou Duarte Cândido.
A técnica, conhecida no meio médico como craniotomia acordada ou awake craniotomy, é considerada uma das abordagens mais complexas e sofisticadas da medicina moderna e permite que os neurocirurgiões realizem a extração do tumor garantindo, em tempo real, que áreas críticas do cérebro não sejam danificadas durante o procedimento. Ela é indicada quando o tumor está próximo das partes do cérebro que controlam movimentos ou fala.
No caso da Santa Casa de Maceió, a neurologista Ana Letícia Albuquerque acompanhou a avaliação cognitiva enquanto a neurofisiologista Thaysa Avelino realizou o monitoramento contínuo das funções cerebrais. A anestesia foi coordenada pela médica Larissa Mendonça, especializada nesse tipo de abordagem, conforme informações divulgadas pelo hospital.
Para além das habilidades humanas, o procedimento contou com um arsenal tecnológico completo: microscópio cirúrgico, endoscópio, neuronavegador, equipamentos de neurofisiologia e tecnologias específicas para identificação tumoral e reconstrução óssea. Na neurocirurgia, a estrutura técnica disponível e os instrumentais cirúrgicos — como microscópios e endoscópios — são determinantes para o resultado, pois a especialidade é a que mais depende de equipamentos adequados para garantir boa visualização e segurança durante os procedimentos.
O neurocirurgião Duarte Cândido, que também é membro titular da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia e tem especialização em cirurgia vascular e de base de crânio, destacou que casos como esse exigem muito mais do que talento individual. Segundo ele, "são cirurgias que demandam estrutura completa, tecnologia de ponta e profissionais treinados em diferentes áreas para garantir segurança e melhores resultados ao paciente".
Os gliomas representam cerca de 30% de todos os tumores cerebrais e, quando localizados em regiões que controlam funções vitais, o desafio cirúrgico aumenta significativamente. A técnica é especialmente útil quando o tumor está situado em regiões cerebrais diretamente ligadas à linguagem, ao raciocínio, à capacidade de interpretar informações ou às áreas responsáveis pelos movimentos.
A Santa Casa de Maceió tem histórico nesse tipo de procedimento. O Serviço de Neurologia e Neurocirurgia da instituição realizou a primeira cirurgia com paciente acordado em Alagoas, e a instituição segue investindo no avanço da especialidade no estado. A Santa Casa realiza cerca de 350 procedimentos neurocirúrgicos por ano, atendendo pacientes do SUS, de convênios e particulares.
Em setembro deste ano, a Santa Casa de Maceió completa 175 anos de fundação. O hospital reúne unidades como a Santa Casa Farol e a Santa Casa Nossa Senhora da Guia, e se destaca também por abrigar o primeiro robô cirúrgico de Alagoas, segundo informações divulgadas pela própria instituição.







