O Hospital de Cirurgia (HC), em Aracaju, chegou à marca de 27 transplantes realizados nos primeiros seis meses de operação do serviço: 24 de rim e três de fígado. O número, divulgado nesta semana, chama a atenção por um dado de contexto: só os transplantes renais já superam tudo o que Sergipe havia registrado no período de 2018 a 2025, segundo o Registro Brasileiro de Transplantes (RBT).
Para a chefe do Serviço de Transplante Renal do HC, Dra. Simone Oliveira, o dado traduz a velocidade com que o programa se consolidou. Segundo ela, o RBT aponta que Sergipe realizou apenas 10 transplantes renais entre 2018 e 2025, sendo quatro deles só no ano passado. Portanto, 24 procedimentos em meio ano representam, nas palavras da médica, "um marco muito importante" para a consolidação do programa.
Os transplantes renais voltaram ao estado no dia 6 de janeiro de 2026, encerrando uma lacuna de 13 anos na rede pública sergipana. O Cirurgia começou a realizar os transplantes renais naquela data, devolvendo à população um serviço que estava interrompido na Rede Estadual de Saúde havia 13 anos. Poucos meses depois, no dia 9 de maio, o hospital alcançou outro marco histórico: o primeiro transplante hepático de Sergipe.
A concretização dos transplantes no Cirurgia é resultado de um processo iniciado em 2022, quando o HC foi habilitado pelo Ministério da Saúde para realizar transplantes de rim e fígado. Desde então, a instituição investiu na ampliação e modernização do centro cirúrgico, aumento de leitos e qualificação de equipes multiprofissionais. O contrato firmado entre o governo estadual e o HC prevê investimento anual superior a R$ 241 milhões, garantindo a realização de transplantes de rim e fígado e outros atendimentos de alta complexidade.
O impacto mais direto é sentido pelos pacientes. O agricultor Josenaldo Oliveira, de 25 anos, morador de Nossa Senhora da Glória, foi o primeiro paciente transplantado pelo HC. Antes da cirurgia, ele enfrentava uma rotina desgastante de hemodiálise três vezes por semana, precisando percorrer cerca de quatro horas de viagem entre ida e volta até Itabaiana. Após o transplante, voltou ao trabalho no campo e segue em acompanhamento ambulatorial na unidade.
Com a implantação do serviço, Sergipe passa a contar com uma alternativa local para o tratamento de pacientes com doenças hepáticas graves que, até então, precisavam ser encaminhados para outros estados. O chefe do Serviço de Transplante Hepático, Dr. Leandro Barros, resumiu o alcance da mudança: "Esse feito muda a medicina de Sergipe, pois agora os pacientes do estado não precisam mais sair para fazer o transplante desse órgão. Podem ficar aqui e ser acolhidos da melhor forma possível para realizar o tratamento."
Além da cirurgia em si, o hospital oferece uma linha de cuidado multiprofissional — médicos, enfermeiros, nutricionistas, psicólogos, assistentes sociais, farmacêuticos e fisioterapeutas — que acompanha o paciente desde a avaliação para inclusão na lista de espera até o pós-transplante. Segundo a Dra. Simone Oliveira, cerca de 25 pacientes estão em lista e já foram feitas avaliações de quase 300 pessoas no total, o que evidencia a grande demanda pelo serviço.
O procedimento inédito acontece no ano em que a instituição filantrópica, integrante da Rede Estadual de Saúde e referência em média e alta complexidade, completa 100 anos de existência. Dados da Central Estadual de Transplantes de Sergipe mostram que, entre janeiro e junho de 2026, o estado já contabilizou 31 doadores, com captação de três corações, 21 fígados, 43 rins e 101 córneas — crescimento de 25,81% em relação ao mesmo período de 2025.







