Os municípios baianos gastaram R$ 659 milhões com contratações de artistas para o São João 2026, uma queda de R$ 42 milhões em relação ao recorde de R$ 701 milhões registrado no ano anterior. A redução de 6% representa uma virada num ciclo de crescimento acelerado de despesas que vinha se repetindo desde 2022, quando o total investido era de apenas R$ 122 milhões.
Os dados são do Painel de Transparência dos Festejos Juninos, plataforma criada em 2022 pelo Ministério Público do Estado da Bahia (MPBA) em parceria com outros órgãos de controle. O Painel reúne informações sobre artistas contratados, cachês, fontes de recursos e programação dos eventos realizados entre 1º de maio e 31 de julho, e se consolidou como instrumento essencial de fiscalização dos gastos públicos com as festas juninas na Bahia. Em 2026, 410 municípios baianos e o Governo do Estado prestaram informações dentro do prazo da primeira etapa de coleta.
A queda nos gastos está diretamente ligada à atuação dos órgãos de controle. Após o MPBA, o Tribunal de Contas do Estado (TCE) e o Tribunal de Contas dos Municípios (TCM) identificarem incompatibilidades nos valores contratados, o MP recomendou, em Nota Técnica Conjunta nº 01/2026, a suspensão de quaisquer pagamentos referentes a contratações que superem os valores médios cobrados em 2025, atualizados pelo IPCA. A medida foi motivada por relatos da União dos Municípios da Bahia (UPB) de que escritórios de artistas apresentavam preços entre 30% e até 100% superiores aos do ano passado.
Além das recomendações institucionais, o MPBA abriu uma mesa de negociação direta com artistas e empresários do setor. Os compromissos firmados entre o Ministério Público, artistas e empresários do setor artístico resultaram em economia superior a R$ 21 milhões aos cofres públicos. Ao todo, 44 artistas e bandas aderiram à iniciativa, com reduções que impactaram diretamente 620 contratos em mais de 200 municípios baianos. Entre os que formalizaram o termo de compromisso estão nomes como Adelmário Coelho, Mastruz com Leite, Limão com Mel, Solange Almeida e Paula Fernandes.
Segundo dados apurados pelo portal A Tarde com base no Painel de Transparência, o número de apresentações contratadas para o São João na Bahia caiu 44% em 2026: foram 4.836 shows, contra 8.673 no ano anterior. Algumas cidades chegaram a cancelar atrações. Pojuca, Irecê, Ibirataia e Quijingue anunciaram mudanças no quadro de atrações, com o prefeito de Pojuca anunciando o cancelamento de alguns dos principais shows do "Arraiá do Juca 2026".
Apesar do corte nos gastos, os festejos registraram resultado econômico positivo. Segundo estimativa da Secretaria de Turismo da Bahia (Setur-BA), cerca de 2 milhões de visitantes participaram das comemorações juninas no estado, movimentando aproximadamente R$ 2,5 bilhões na economia baiana, números superiores aos registrados em 2025. Para a UPB, o resultado mostrou que controle fiscal e festa popular não são incompatíveis.
O balanço final da atuação conjunta entre MPBA, TCE, TCM e UPB aponta economia ainda maior do que a diferença entre os dois anos. A atuação conjunta entre as instituições permitiu aos municípios baianos alcançar uma economia superior a R$ 60 milhões em relação aos gastos registrados no São João de 2025, sendo que mais de R$ 25 milhões foram economizados por meio de acordos firmados entre o Ministério Público e artistas. A diferença entre esse número e a queda de R$ 42 milhões registrada no Painel reflete casos em que o corte foi compensado por novos contratos em outros municípios.
Entre as dez cidades que mais reduziram gastos com contratações em 2026, segundo informações divulgadas pelo portal A Tarde, estão Valença (R$ 6,4 milhões), Amargosa (R$ 5,8 milhões), Pojuca (R$ 4,3 milhões) e Conceição do Jacuípe (R$ 3,8 milhões). O caso de Amargosa chamou atenção: apesar do corte, a cidade virou alvo de questionamentos sobre a ausência de público, enquanto um levantamento do MP apontou salto de 204% nos gastos com a festa em três anos — período em que menos de 3% da população local tinha acesso à rede de esgoto.
O procurador-geral de Justiça, Pedro Maia, destacou que a ação é fruto de um modelo de diálogo que a Bahia tem exportado para o Brasil, ressaltando que o objetivo não é tabelar cachês, mas estabelecer balizas norteadoras para evitar gastos que extrapolem as possibilidades financeiras das prefeituras. A tendência é que o Painel de Transparência siga como ferramenta permanente de controle nas próximas edições da festa.







