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Política

Mulheres na Bahia vão às ruas contra o feminicídio neste domingo

O Levante Mulheres Vivas na Bahia organiza protesto em Salvador neste domingo, 14 de dezembro, para denunciar a violência de gênero e a alta taxa de feminicídios no país.

Redação ChicoSabeTudoRedação · Política
13 de dezembro, 2025 · 03:10 6 min de leitura
Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Mulheres baianas se preparam para ir às ruas neste domingo, 14 de dezembro, em um grito de basta contra a violência de gênero e o feminicídio. A mobilização, organizada pelo movimento Levante Mulheres Vivas, acontece em Salvador e ecoa a luta nacional por mais segurança e respeito às vidas das mulheres.

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Os números assustam e mostram a urgência dessa causa: o Mapa Segurança Pública de 2025, divulgado em junho, revela que cerca de quatro mulheres são assassinadas por dia no Brasil. Isso significa uma morte a cada oito horas. Só em 2024, mais de 1.400 mulheres morreram vítimas de feminicídio em todo o país, um cenário que impulsiona a onda de protestos.

Protesto em Salvador: Do Cristo ao Farol da Barra

Na capital baiana, a concentração do Levante Mulheres Vivas está marcada para as 9h da manhã no Cristo da Barra. De lá, as participantes seguirão em caminhada até o Farol da Barra, um dos cartões-postais de Salvador, na Bahia. Pelas redes sociais, o grupo Levante das Mulheres Vivas na Bahia convoca mulheres de todas as áreas e idades, mostrando rostos comuns que se unem para clamar por mudança.

Liderando a mobilização estadual e com vasta experiência em outras manifestações nacionais, está Sandra Munõz. Belo-horizontina que escolheu a Bahia como lar há mais de 37 anos, Sandra dedica sua vida à defesa das mulheres e da comunidade LGBTQIAPN+. Ela resume o sentimento que leva as mulheres às ruas:

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"As mulheres estão cansadas, elas não aguentam mais ver morte, não aguentam ver mais assassinatos. Então, eu acho que quando as mulheres vão para rua, é nesse sentido", desabafa Sandra. Ela ainda pontua a simbologia do período natalino para a manifestação: "É para a gente falar: ‘Ó, nós estamos aqui no processo do Natal, que em vez de a gente estar cuidando das nossas vidas, tirando férias, cuidando da nossa família para o Natal, eu estou no meio da rua pedindo que eu viva até o final do ano, como as outras companheiras não conseguiam viver’."

A Luta Diária e a Falta de Apoio

Para Sandra, apesar do crescimento das campanhas de conscientização, as políticas públicas ainda não são suficientes. Como gestora da Casa de Acolhimento Marielle Franco Brasil, em Salvador – um espaço que abriu as portas oficialmente em 2023 para acolher mulheres e pessoas LGBTQIAPN+ –, ela vive o drama da violência de perto. Em sua rotina, histórias dolorosas se tornam comuns.

Ela conta sobre uma situação recente que ilustra as falhas do sistema. "Uma menina estava na Casa da Mulher Brasileira chorando e uma amiga me ligou e falou: ‘Sandra, eu tenho uma amiga minha que ela não tem para onde ir, com quatro crianças’", lembra. A surpresa de Sandra com a falta de direcionamento para um abrigo foi grande. "Na hora, eu pensei: ‘Como assim, quatro crianças não tem para onde ir? A Casa da Mulher Brasileira não é o lugar que indica para ir à casa de acolhimento?’."

O problema se agravou quando a polícia foi chamada para tirar o marido da casa da vítima, que estava lá sem uma medida protetiva. O policial informou que não poderia removê-lo sem o documento. Na delegacia, a vítima foi questionada se o marido a havia batido. "Ela respondeu: ‘Não, hoje não, mas ele tá sempre me batendo’ e ele fala: ‘Ah, mas você não tem marca’. Então assim, as mulheres estão cansadas disso", conclui Sandra, mostrando o descaso e a burocracia que muitas vezes impedem a proteção.

Uma História Pessoal que Virou Missão

A relação de Sandra com a violência contra a mulher começou muito antes de sua atuação como gestora e ativista. Ainda na infância, a violência de gênero atingiu sua própria casa. "A minha militância começa com 13 anos de idade. Eu era jogadora de futebol em Belo Horizonte, fazia Senai em mecânica e um dia eu cheguei em casa do futebol, meu pai estava batendo nela", relata, referindo-se à sua mãe.

Naquele dia, Sandra confrontou o pai, uma atitude de coragem que marcou sua vida. "Eu peguei a mão dele e falei: ‘Nunca mais você bate nela e eu vou te meter porrada’. Claro que ele me bateu, mesmo eu batendo nele, porque ele era mais forte, mas eu falei com a minha mãe: ‘Vamos sair dessa casa, vamos sair dessa vida’." A resposta da mãe, no entanto, foi desanimadora: "Ela disse: ‘Olha, para mim não tem mais jeito. Eu apanho do seu pai já tem 20 anos e é a primeira vez que ele me bate na sua frente, [é a primeira vez que] você chegou e ele não parou’."

Mesmo na dor, a mãe de Sandra a impulsionou para a luta. "Ela disse: ‘Mas eu quero que você vire um monstro para salvar as mulheres, que como eu não fui, você consiga ser liberta, salva, eu quero você salva e não quero que você coma reggae de ninguém, eu quero que você seja determinada a salvar as mulheres’", compartilha Sandra, emocionada. Essa virada a levou a se engajar em movimentos feministas nacionais e internacionais, como a Marcha das Vadias no Brasil e a Marcha las Putas em outros países da América Latina, sempre em defesa dos direitos e da liberdade feminina.

Consciência Acima dos Números

Com toda essa bagagem, Sandra Munõz não busca apenas números grandes nas ruas de Salvador. Para ela, a qualidade da participação é mais importante que a quantidade. "Eu não quero saber de quantidade. Eu não quero colocar 1.000 mulheres na rua. Eu quero colocar três que têm consciência do que a gente tá fazendo, entendeu?", explica.

Ela entende que o impacto de manifestações como essa não se mede pela quantidade de pessoas, especialmente em temas tão sensíveis. "Eu não estou preocupada de colocar 5 milhões na rua, colocar 9 milhões. Que legal se a gente colocar, mas isso para mim não é importante. Eu quero que a mulher entenda que ela tá lá na rua, porque a irmã dela, a vizinha dela ou ela pode ser a próxima [vítima]", enfatiza, destacando a importância da identificação e da solidariedade.

As manifestações do Levante Mulheres Vivas já mostraram sua força em outras capitais no último domingo (7). Milhares de mulheres foram às ruas no Rio de Janeiro (RJ), São Paulo (SP) e Belo Horizonte (MG). Na capital paulista, o ato chegou a reunir cerca de 9,2 mil pessoas, segundo um levantamento do Monitor do Debate Político do Cebrap em parceria com a USP.

É com a expectativa de ecoar essas vozes e exigir um fim para a violência que as baianas se encontrarão neste domingo, prontas para levantar a bandeira das Mulheres Vivas.

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