Paulo Afonso · BA
Última hora
Operação prende 14 suspeitos em Salvador nesta manhãSTF retoma julgamento sobre marco temporal nesta tardeVitória empata em casa pela Copa do BrasilVagas de emprego no polo de Camaçari saltam 22%Salvador registra maior volume de chuva do mês
PI 637
Política

Mario Júnior surpreende e se filia ao PSB no apagar das luzes da janela partidária

Deputado abandona o PP após federação com União Brasil e fecha com o PSB em acordo articulado por João Campos e Jerônimo.

Redação ChicoSabeTudoRedação · Política
03 de abril, 2026 · 16:56 8 min de leitura
Mario Júnior surpreende e se filia ao PSB no apagar das luzes da janela partidária

Após meses de suspense e uma reviravolta nos últimos momentos, o deputado federal Mario Júnior oficializou sua filiação ao Partido Socialista Brasileiro (PSB), abandonando o Progressistas (PP) que presidiu na Bahia por anos. A notícia chega como desfecho surpreendente de uma negociação tortuosa que durou mais de seis meses e envolveu vetos internos, resistências de Lídice da Mata e uma rodada de conversas com pelo menos quatro partidos diferentes.

Publicidade

A filiação ocorreu nos dias finais da janela partidária de 2026 — entre 2 e 3 de abril — prazo-limite para que parlamentares pudessem trocar de legenda visando as eleições de outubro. A decisão reconfigura o tabuleiro político baiano e fortalece o PSB como peça-chave da base governista de Jerônimo Rodrigues.

Sete meses de negociação: do aval ao veto e de volta ao PSB

A saga começou em 16 de setembro de 2025, quando o governador Jerônimo Rodrigues se reuniu simultaneamente com João Campos (presidente nacional do PSB e prefeito do Recife), Lídice da Mata (presidente do PSB-BA) e o secretário de Relações Institucionais, Adolpho Loyola. No mesmo dia, Jerônimo se encontrou com Mario Júnior. A filiação ao PSB era um desejo tanto do governador quanto de João Campos, que via no deputado baiano — com trânsito no Centrão e amizade pessoal — um aliado estratégico para seus planos de disputar a Presidência da República em 2030.

Campos chegou a oferecer a Mario Júnior o comando do PSB na Bahia: a “chave do cofre” para montar chapas e definir prioridades. A proposta detonou uma crise interna. Lídice da Mata, presidente estadual do partido e única deputada federal do PSB baiano desde 2018, passou a resistir nos bastidores. Fontes próximas a ela revelaram a preocupação: “João Campos chamou ela em Brasília e disse que quer um deputado federal de mandato no partido e esse deputado é Mário Júnior”. Aliados de Lídice avaliaram que a entrada de Mario Júnior poderia “esvaziar completamente o PSB na Bahia” e comprometer sua reeleição.

Publicidade

Em 25 de novembro de 2025, a Executiva Nacional do PSB, reunida em Brasília com presença de Lídice, do vice-presidente Rodrigo Hita, de Bebeto Galvão e de Domingos Leonelli, vetou formalmente a filiação. O argumento: a migração “colocava em risco a permanência de quadros históricos e a própria coesão do grupo político na Bahia”. Publicamente, Lídice negou usar a palavra “veto”: “Não existe negativa, não existe veto a Mário Negromonte. Ele é um deputado sério. Mas, quando se discute chapa, buscamos as condições de viabilidade”.

Barrado no PSB, Mario Júnior iniciou conversas com PSD (reunindo-se com o senador Otto Alencar em fevereiro de 2026), PDT (conversando com Lupi) e Podemos (com a presidente Renata Abreu). O Podemos se tornou favorito: “Tem uma coisa bacana que é a proximidade com o Centro, uma coisa mais em uma linha que eu sempre fui”, declarou em 30 de março à rádio Antena 1 Salvador. No dia 1º de abril, ainda descartava o PSB publicamente: “A gente percebeu que o cenário que estava aqui não caberia duas pessoas com o mesmo tamanho, eu e Lídice”.

A reviravolta final indica que articulações de última hora envolvendo o governador Jerônimo, o ministro Rui Costa e João Campos conseguiram destravar o impasse e acomodar Mario Júnior no PSB antes do fechamento da janela.

Por que Mario Júnior deixou o PP que ajudou a construir

A causa fundamental foi a federação do PP com o União Brasil, formando a “União Progressista”. Como o União Brasil é o partido de ACM Neto — pré-candidato da oposição ao governo da Bahia — a federação colocou o PP automaticamente no campo adversário ao governador Jerônimo Rodrigues (PT) e ao presidente Lula, posição incompatível com a de Mario Júnior, que atuava como vice-líder do governo Lula na Câmara desde maio de 2025.

O deputado, que era presidente estadual do PP e acumulava quatro mandatos pela legenda, descreveu a ruptura com resignação: “Ficou para trás a defesa da independência. O partido aqui sempre teve essa independência nacional em votar para quem quisesse para governador, para presidente. E depois com o tempo isso foi mudando”. Sobre a conversa de despedida com Ciro Nogueira, presidente nacional do PP, revelou: “A conversa foi muito boa, lógico que ele demonstrou uma certa tristeza porque saiu um quadro jovem como eu”. Evocou ainda o pai: “Meu pai me ensinou, você tem que saber entrar e sair”.

Em 31 de março de 2026, Mario Júnior passou formalmente a presidência do PP-BA para Cacá Leão (filho de João Leão, secretário de Governo de Salvador). A debandada pepista na Bahia foi massiva: deputados estaduais como Niltinho (PSD), Felipe Duarte (Avante), Eduardo Salles (PV) e Antônio Henrique Júnior (PV) também deixaram a legenda.

Lídice da Mata e o jogo duplo entre lealdade e sobrevivência

O papel de Lídice da Mata foi central — e ambivalente — em toda a narrativa. A deputada federal e ex-prefeita de Salvador operou em duas frentes simultâneas. Publicamente, adotou postura cautelosa, evitando confronto direto com João Campos e dizendo que “não discutimos ideias, discutimos matemática” sobre as chapas. Nos bastidores, articulou a resistência e participou ativamente da reunião que barrou a primeira tentativa de filiação em novembro de 2025.

Suas preocupações eram concretas. Mario Júnior obteve 147.711 votos em 2022, contra os 104.348 de Lídice em 2018. Fontes internas do PSB-BA calculavam: “Com Mário, elege Mário. O governador vai ter que ajudar a eleger mais um, Lídice ou Bebeto”. Havia ainda o risco de perder a própria presidência do partido — João Campos, segundo aliados, “não está satisfeito com o desempenho do partido sob a presidência dela” e questionava que o PSB estava “muito comprometido com o PT” sem um projeto claro de crescimento.

A filiação final de Mario Júnior ao PSB sugere que um acordo foi alcançado para acomodar ambos na chapa de deputados federais, embora os termos específicos dessa acomodação ainda não tenham sido divulgados. Um efeito colateral concreto já se materializou: Bebeto Galvão, suplente do senador Jaques Wagner e pré-candidato a deputado federal, deixou o PSB após mais de duas décadas, sinalizando que a entrada de Mario Júnior efetivamente deslocou quadros históricos.

O pai Mário Negromonte e os indícios de retorno à política

O ex-deputado federal e ex-ministro das Cidades Mário Negromonte (pai) tem aparecido com frequência nos bastidores políticos do filho. Em fevereiro de 2026, foi fotografado ao lado de Mario Júnior e do senador Otto Alencar (PSD) durante reunião em Salvador. Aposentado compulsoriamente do Tribunal de Contas dos Municípios da Bahia (TCM-BA) em junho-julho de 2025, ao completar 75 anos, o ex-ministro não descartou voltar à vida política ativa.

Em entrevista ao Política Livre em julho de 2025, declarou: “Vamos analisar no momento certo. Vou conversar principalmente com Mário Júnior. Ele que é o chefe agora, não é?”. O Bahia Notícias reportou que ele “encaminha sua candidatura como deputado estadual para as eleições de 2026”, embora lideranças próximas afirmassem que “ainda não há nenhuma definição”.

Não foi possível confirmar se o pai esteve presente na cerimônia de filiação ao PSB — o artigo com os detalhes do evento ainda não estava plenamente acessível nos mecanismos de busca no momento desta pesquisa, dado o seu caráter extremamente recente.

Reações das lideranças e o que muda no tabuleiro baiano

As reações à movimentação de Mario Júnior revelam os interesses em jogo:

∙ Cacá Leão (novo presidente do PP-BA): “Eu gostaria muito que ele ficasse, mas acho que nesse momento os caminhos hoje levam para disputar a eleição em um dos partidos da base do governador”.

∙ Ciro Nogueira (presidente nacional do PP): Demonstrou, segundo Mario Júnior, “uma certa tristeza” pela saída de “um quadro jovem”.

∙ João Campos (presidente nacional do PSB): Principal articulador nacional da filiação, viu em Mario Júnior um trunfo para sua estratégia de 2030, valorizando seu trânsito no Congresso e no Centrão.

∙ Bebeto Galvão: Deixou o PSB após mais de 20 anos, sinal inequívoco de que a entrada de Mario Júnior deslocou quadros internos.

∙ Integrantes do União Brasil: Disseram que após a federação “não aceitariam parlamentares com um pé em cada barco”, pressionando pela saída dos aliados de Jerônimo.

Conclusão

A filiação de Mario Júnior ao PSB é o desfecho de uma das mais turbulentas negociações da janela partidária de 2026 na Bahia. Três fatos se destacam. Primeiro, a federação PP-União Brasil produziu uma reação em cadeia que esvaziou os Progressistas baianos e redistribuiu peças no xadrez governista. Segundo, o PSB de João Campos demonstrou capacidade de absorver nomes do Centrão mesmo contra resistências internas — padrão que se repete nacionalmente com as filiações de Rodrigo Pacheco, Simone Tebet e Cristovam Buarque no mesmo período. Terceiro, a dinâmica entre Mario Júnior e Lídice da Mata dentro do PSB-BA será um dos pontos de tensão mais observados até outubro: dois deputados federais de peso competindo por espaço numa federação pequena (Cidadania-PSB) num estado onde o partido historicamente elegeu apenas um nome para a Câmara. O resultado dessa convivência definirá não apenas a força do PSB na Bahia, mas também a viabilidade dos planos nacionais de João Campos para 2030.

Leia também