A capital da Índia, Nova Déli, se torna o centro das atenções mundiais nesta semana ao sediar a Cúpula de Impacto da Inteligência Artificial 2026. O evento, que começou na segunda-feira (16) e vai até sexta-feira (20), é um marco por ser a primeira cúpula internacional de IA a acontecer no chamado Sul Global, região que inclui o Brasil.
O Presidente Luiz Inácio Lula da Silva participa ativamente da cúpula, onde o Brasil busca um papel de destaque nos debates sobre o futuro da inteligência artificial. Ele se junta a uma lista impressionante de chefes de estado e governo, como o anfitrião Narendra Modi, primeiro-ministro da Índia, Emmanuel Macron, presidente da França, e António Guterres, Secretário-Geral da ONU. Além das autoridades políticas, líderes de gigantes da tecnologia também marcam presença, incluindo Sam Altman, CEO da OpenAI, e Sundar Pichai, CEO da Alphabet (empresa mãe do Google), o que garante discussões profundas sobre os rumos da IA.
O Brasil e a Índia juntos por um futuro digital
No centro da agenda de Lula em Nova Déli está a preocupação de que o Sul Global não fique para trás na corrida pela inteligência artificial. O governo brasileiro entende que essa é uma nova fronteira da desigualdade que precisa ser combatida.
“A cadeia de IA que vai desde as terras raras até o software não pode levar a um maior desequilíbrio entre países nem aprofundar a desigualdade dentro dos países. É muito importante debater quem vai produzir a tecnologia, como ela vai ser distribuída, e como o Brasil se insere nisso de uma maneira diferente das últimas mudanças tecnológicas, em que ficamos correndo atrás”, explicou à Folha de S.Paulo Esther Dweck, ministra da Gestão e da Inovação.
Um dos pontos altos da visita de Lula será o anúncio da Parceria Digital Brasil-Índia para o Futuro. Este acordo, ao qual o jornal Folha de S.Paulo teve acesso, prevê uma série de colaborações essenciais:
- Criação de um centro de excelência conjunto para infraestrutura pública.
- Trabalho em identidade digital, pagamentos eletrônicos e compartilhamento de dados.
- Formação de uma rede aberta de IA para auxiliar na ação climática em países em desenvolvimento.
- Cooperação no uso e desenvolvimento de grandes modelos de linguagem de IA.
- Parceria no setor de semicondutores.
- Acordos sobre governança da internet e inovação em IA, com respeito aos direitos autorais.
O Presidente brasileiro também levará à mesa de discussões a defesa da soberania do Brasil para regular as grandes empresas de tecnologia (as chamadas big techs) e a necessidade de uma governança global para a inteligência artificial.
A agenda de Lula na Índia é intensa: ele participa da Cúpula na quinta-feira (19). Na sexta-feira (20), o governo brasileiro organiza um evento paralelo, “IA para o bem de todos”, para apresentar a visão do Brasil sobre o futuro da IA, com a presença de vários ministros. O sábado (21) reserva uma importante reunião bilateral com Narendra Modi, onde se espera o anúncio de pelo menos dez acordos entre os dois países.
Minerais críticos: uma parceria estratégica
Outra iniciativa crucial do Brasil na Índia é o lançamento de um memorando de entendimento focado em minerais críticos. Estamos falando de elementos como lítio, cobalto, níquel e terras raras – materiais indispensáveis para a fabricação de baterias de carros elétricos, painéis solares, turbinas eólicas e semicondutores. Esses minerais são a base da tecnologia moderna e da transição energética, o que intensifica a busca global por acesso a reservas e cadeias de suprimento seguras.
Este será o primeiro acordo bilateral do Brasil dedicado a minerais críticos, e a escolha da Índia como parceira é notável, especialmente por não ser com potências como China ou Estados Unidos.
As falas de Lula e o acordo devem deixar claros os princípios do Brasil sobre o tema:
- Não à exclusividade: O governo brasileiro não quer firmar tratados que ofereçam exclusividade de exploração, uma postura que contraria pressões de alguns países, como os EUA.
- Desenvolvimento interno: O Brasil quer estimular o processamento desses minerais em seu próprio território, buscando deixar de ser apenas um fornecedor de matéria-prima.
Por parte da Índia, o interesse nessa parceria é reduzir sua dependência da China, que atualmente domina a produção e o processamento de minerais críticos. Vale lembrar que o Brasil possui a segunda maior reserva desses recursos no mundo.
Por que a Índia é a anfitriã?
A escolha da Índia para sediar este evento não é por acaso. O governo do primeiro-ministro Modi tem um objetivo claro: fazer do país um protagonista na corrida tecnológica global. A Índia já investiu cerca de US$ 18 bilhões em projetos de semicondutores para construir uma cadeia de produção nacional e tem pressionado grandes empresas, como a Apple, a fabricar mais produtos localmente.
O país é um mercado em ascensão, com uma população jovem e altamente conectada à tecnologia, além de uma vasta reserva de talentos que podem impulsionar o desenvolvimento da IA. Analistas de mercado esperam que a cúpula traga anúncios de grandes investimentos por parte de empresas do setor na Índia, incluindo aportes em data centers, seguindo a linha de investimentos já anunciados por Amazon e Microsoft, que superam os US$ 50 bilhões.







