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Política

Geóloga alerta: corte de fertilizantes importados seria "desastre internacional" — e a Bahia tenta mudar esse cenário

Especialista do Serviço Geológico do Brasil aponta que 80% dos fertilizantes consumidos no país vêm de fora e que o estado busca depósitos próprios de fosfato e potássio para reduzir essa vulnerabilidade.

Redação ChicoSabeTudo
15 de julho, 2026 · 12:15 3 min de leitura
Área de mineração de fosfato no norte da Bahia, com solo árido e maquinário de extração mineral
Área de mineração de fosfato no norte da Bahia, com solo árido e maquinário de extração mineral

O Brasil alimenta mais de 800 milhões de pessoas no mundo, mas depende do exterior para produzir o que planta. Mais de 80% dos fertilizantes consumidos pelo agronegócio brasileiro são importados — e essa conta pode chegar a qualquer momento. Foi com esse alerta que a geóloga Maisa Abram, chefe do Departamento de Recursos Minerais do Serviço Geológico do Brasil (SGB), participou do projeto especial "Mineração para Todos", patrocinado pela Companhia Baiana de Pesquisa Mineral (CBPM).

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Segundo Abram, doutora em pesquisa de fosfato, a situação é grave o suficiente para preocupar não só o mercado interno. "Seria um desastre a nível internacional. A nossa produtividade está totalmente relacionada ao uso de fertilizantes", afirmou a especialista ao ser questionada sobre o que aconteceria se o Brasil perdesse acesso às importações.

A forte dependência externa torna o agronegócio brasileiro mais vulnerável a fatores que fogem do controle da cadeia produtiva nacional. Conflitos geopolíticos, sanções econômicas, restrições comerciais, alterações cambiais e problemas logísticos internacionais podem comprometer o abastecimento de fertilizantes e elevar significativamente os custos de produção.

O Brasil registrou em 2025 um novo recorde na importação de fertilizantes, alcançando 45,5 milhões de toneladas, segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Apesar do avanço no volume importado, o cenário não trouxe alívio significativo aos custos de produção no campo, que continuam elevados e sensíveis às oscilações do mercado internacional.

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A geóloga também citou, segundo informações divulgadas pela Bahia Notícias, o desafio lançado pela FAO — organização da ONU para alimentação — ao Brasil: aumentar a produtividade em pelo menos 40% até 2050, levando em conta o crescimento da população mundial. Para ela, se o abastecimento de fertilizantes fosse interrompido, essa meta seria absolutamente inviável.

O problema tem raízes no tipo de solo que o Brasil usa para cultivar. A região oeste da Bahia, um dos maiores polos agrícolas do país, é formada basicamente por areias e arenitos — terrenos de fertilidade quase nula. De acordo com dados do governo federal, os fertilizantes mais aplicados no país são os macronutrientes primários: nitrogenados (N), fosfatados (P) e potássicos (K), que podem ser aplicados separadamente ou em complexo NPK. Sem repor esses nutrientes, nada cresce.

Na Bahia, a Companhia Baiana de Pesquisa Mineral (CBPM) possui atualmente cinco projetos relacionados à pesquisa do fosfato — base de um dos principais fertilizantes de origem mineral — e são ações como essa que podem ajudar a amenizar o grande volume de importações.

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Na Bahia, a única empresa mineradora de fosfatos em operação é a Galvani Fertilizantes, que produziu pouco mais de 210 mil toneladas de rocha fosfática no município de Campo Alegre de Lourdes. Além dessa unidade, a empresa possui dois contratos com a CBPM: um de arrendamento no município de Irecê, com capacidade para produzir cerca de 200 mil toneladas por ano de concentrado fosfático, e um contrato de pesquisa complementar no município de Caracol, no Piauí, com produção mínima prevista de 80 mil toneladas por ano.

Apesar da produção local existente, a geóloga Abram reconhece que ainda há muito a avançar. O potássio — um dos três pilares do NPK — ainda não é produzido em escala significativa no Brasil. Até fevereiro de 2026, a Rússia liderava como principal fornecedora individual de fertilizantes ao Brasil, respondendo por 22,1% das compras externas. Isso torna o país refém de tensões geopolíticas que ele não controla.

Diante desse cenário, iniciativas como o Plano Nacional de Fertilizantes (PNF) ganham ainda mais relevância. Lançado em 2022, com o objetivo de reduzir a dependência externa para cerca de 50% até 2050, o plano prevê incentivos à produção nacional, modernização industrial, melhorias na infraestrutura e estímulo à inovação.

A CBPM e o SGB têm atuado juntos para identificar novos depósitos no território baiano. O objetivo é transformar a Bahia em parte da solução para um problema que, se não resolvido, pode levar à mesa vazia — não só aqui, mas no mundo inteiro.

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