A urbanização de Salvador revela suas complexas desigualdades sociais, impressas não apenas nas estatísticas de desemprego e segurança pública, mas também nas disparidades urbanas visíveis. Enquanto o Centro Histórico ostenta seus casarões e a Barra apresenta prédios de luxo, a cidade abriga também bolsões de pobreza em comunidades adjacentes e em áreas como Cajazeiras, um dos maiores complexos habitacionais da América Latina.
Angela Maria Gordilho, arquiteta e urbanista formada pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e doutora pela Universidade de São Paulo (USP), explica que a urbanização de Salvador começou de maneira planejada desde sua fundação em 1549. “A cidade urbanizada nasceu desde a sua fundação e era grande, era um dos maiores centros urbanos do Brasil”, afirmou. Com um crescimento demográfico modesto até o século XIX, Salvador contava com aproximadamente 170.000 habitantes em 1900.
As mudanças começaram a se intensificar com a estabilização das leis anti-escravistas no final do século XIX. De acordo com Gordilho, a primeira ocupação significativa ocorreu na década de 1940, quando a população negra, recém-liberada da escravidão, começou a se deslocar para o Centro da cidade em busca de melhores condições de vida.
O crescimento urbano nas décadas seguintes levou à ocupação de áreas como Brotas e Federação, onde muitas terras eram arrendadas, criando um padrão distinto de ocupação. Enquanto isso, o subúrbio permanecia em grande parte desabitado até meados do século XX, quando as comunidades se aglomeraram em regiões como Calçada e Alagados, conhecidas por suas condições precárias de habitação com palafitas.
A evolução urbana seguiu para a orla, onde áreas como Pituba e Rio Vermelho passaram a abrigar os novos-ricos, enquanto as populações de menor renda encontraram moradia nas partes mais distantes da cidade. Gordilho observa que o Estado também iniciou a construção de grandes conjuntos habitacionais, como em Cajazeiras, permitindo que a classe média baixa se mudasse para o miolo da cidade. Contudo, esse crescimento muitas vezes levou à ocupação irregular de áreas ao redor, refletindo a luta contínua contra a pobreza em Salvador.







