O tradicional Fórum Econômico Mundial em Davos tem mostrado uma cara bem diferente ultimamente. O que antes era um palco principal para discussões sobre problemas globais, como clima e refugiados, agora se transformou em uma grande vitrine para a inteligência artificial (IA) e as oportunidades de negócio das gigantes de tecnologia.
Essa mudança ficou clara para Peter S. Goodman, repórter do The New York Times, que acompanhou o evento. Segundo ele, os debates sobre questões sociais e humanitárias acabaram ficando em segundo plano, enquanto a euforia com a IA tomava conta dos corredores e das festas.
A nova face de Davos: brilho da IA e das Big Techs
Em um dos dias do fórum, uma fila enorme se formava em frente à AI House, um espaço dedicado à conversa sobre o futuro da IA. Perto dali, uma multidão ainda maior tentava entrar em outro evento focado em IA e segurança digital. O clima era de grande entusiasmo: pessoas trocavam dicas de festas exclusivas, tiravam selfies e circulavam por lounges com luzes neon, patrocinados por empresas de tecnologia e criptomoedas.
Enquanto isso, iniciativas importantes com foco social passavam quase despercebidas. Um espaço dedicado à Aliança para o Bem Global — um projeto da Índia para fortalecer a saúde e educação feminina — estava praticamente vazio, mostrando o contraste gritante das prioridades.
Discussões sobre as mudanças climáticas, a situação dos refugiados ou o futuro da saúde ainda aconteciam, mas estavam limitadas a salas menores e com bem menos público. O verdadeiro destaque, percebe-se, era para os grandes grupos empresariais e a promessa de lucros que a nova onda tecnológica traz.
Tensão política com Donald Trump em meio ao fórum
Esta edição do fórum juntou cerca de 3 mil pessoas de 130 países, a maior participação já vista. Uma das maiores expectativas era a chegada de Donald Trump, ex-presidente dos Estados Unidos, o que aumentou a segurança e o movimento nas ruas de Davos. Sua presença no evento, historicamente ligado ao multilateralismo europeu, era vista com bastante sensibilidade, especialmente depois de suas declarações polêmicas, como a ameaça de reivindicar a Groenlândia, território da Dinamarca.
Os líderes europeus mostraram seu desconforto com a situação. A presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, disse esperar uma resposta firme da Europa diante da pressão americana. Já Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, avisou que a reação europeia ao caso da Groenlândia seria “inabalável, unida e proporcional”.
Em reuniões paralelas, diplomatas e ativistas europeus debatiam o impacto de um possível retorno de Trump à política global. Houve críticas à postura dos EUA em relação à Ucrânia, que alguns parlamentares europeus viam como motivada puramente por interesses econômicos.
O otimismo do setor de tecnologia
Apesar das tensões políticas, o que mais chamava a atenção eram os espaços físicos ocupados pelas grandes empresas de tecnologia. As principais lojas da avenida central foram transformadas em ambientes dedicados a companhias como Meta, Salesforce, Tata e grandes consultorias.
Um dos lugares mais procurados era a USA House, patrocinada pela McKinsey e Microsoft, que destacava temas como liderança americana e inovação. Bem em frente, estava o prédio da Palantir, uma empresa conhecida por seus projetos de vigilância para o governo dos EUA.
Enquanto parte da Europa se preocupava com a forma de reagir a Trump, executivos de tecnologia pareciam encará-lo de outra maneira. A expectativa de um encontro do ex-presidente americano com CEOs gerava curiosidade e otimismo entre os empresários. Para muitos deles, o foco está em criar valor para os acionistas, e a promessa de menos burocracia e regras mais simples é vista com bons olhos.
Temas como diversidade, igualdade e sustentabilidade, que antes eram constantes nos discursos corporativos em Davos, perderam espaço.
No fim das contas, o cenário no Fórum Econômico Mundial de Davos reforça uma percepção antiga, agora mais evidente: o evento se consolida como uma grande vitrine de negócios, com a inteligência artificial no centro das atenções. Debates sobre valores, direitos humanos e cooperação internacional continuam existindo, mas já não dão o tom principal do encontro.







